"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 3 de junho de 2017

A APRENDIZAGEM DE SAYOKO

Sayoko acordou cedo naquela manhã fria de outono. Enrolou-se nos cobertores e saiu em direção aos fundos da sua casa. Em pé, à margem do rio que dividia ao meio a vila de agricultores, seu avô observava o curso da água que colidia com as pedras. Ela se aproximou e postou-se ao seu lado, intrigada. A leve neblina começava a se dissipar aos primeiros raios do sol, mas ainda encobria a fachada das casas do outro lado da margem. Sem olhar para neta, o velho indagou:
– O quê você vê?
Sayoko não se surpreendeu com a pergunta. Seu avô sempre a interpelava daquela forma.
– Vejo a força da água lutando contra a resistência das pedras, disse ela, querendo causar boa impressão.
O velho escutou a resposta e permaneceu em silêncio por alguns minutos. Em seguida, perguntou novamente:
– O que você vê além disso?
Sayoko o fitou com uma interrogação no olhar. Seu avô decidiu, então, responder.
– Há um curso de água que trilha seu caminho no leito do rio. Há pedras que se opõem a esse curso e resistem à força das águas. Mas não há luta entre o rio e as pedras.
– Não entendi, disse Sayoko.
– Há pessoas que são como o rio. Pessoas que são fluxo, continuidade, mudança. As pessoas que são como o rio não buscam uma trajetória única. A exemplo dos rios, que serpenteiam os vales e seguem seu curso amoldando-se às características do terreno que formam o seu leito, essas pessoas têm como característica a ductibilidade. Elas se adaptam às dificuldades do caminho.
– Mas as rochas e as pedras impedem a passagem da água do rio e desviam o seu curso, afirmou Sayoko, em tom desafiador.
– Isso mesmo, disse o velho. Há pessoas que são como as rochas e pedras que criam obstáculos à passagem da água, impedindo-lhe o curso normal. Mas observe mais de perto. Você acha realmente que a água está lutando contra as rochas? Sayoko aproximou-se da margem. Via apenas o fluxo da água bater nas rochas e desviar-se para a direita, ampliando a largura do rio naquele local e seguindo seu curso em um ponto mais distante da margem em que estava. Assim como as águas, as folhas amareladas caídas no rio naquele início de outono também faziam o mesmo caminho. O velho prosseguiu.
– As águas não lutam contra os obstáculos. Observe que elas abordam as rochas no seu caminho com uma permanente suavidade. A persistência do contato não afeta as águas, mas transforma as pedras. Aos poucos, as águas moldam as rochas. As arestas pontiagudas são lentamente aparadas e arredondadas pelo contato com a água. As rochas não estão ali para impedir a passagem da água ou para mudar o curso do rio. Elas estão ali para permitir que as águas as transformem, aos poucos, lentamente.
– Mesmo que você seja a rocha, você pode escolher que tipo de rocha você quer ser, disse Sayoko, em tom pensativo.
Seu avô esboçou um sorriso.
– Isso mesmo. Nem sempre podemos escolher se seremos o fluxo de um rio ou a rigidez de uma rocha. Mas podemos sempre escolher o tipo de rio ou de rocha que seremos. Não adianta lutar contra os que nos impõem obstáculos. As águas dos rios sempre poderão desviar-se das rochas, mudando o seu curso. E podem fazê-lo acariciando a superfície rochosa, transformando-a com o tempo.
O avô de Sayoko deu as costas e rumou em direção a casa. Sayoko permaneceu ali, por alguns minutos, pensativa. Uma rajada de vento congelou sua face. Sayoko virou-se e correu para casa. A neblina do outro lado da margem já se dissipara por inteiro. Mas aquela seria uma manhã fria.
Fernando Sérgio Tenório de Amorim