"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 18 de março de 2017

NEUROSES E PERSONALIDADES PSICÓTICAS




NEUROSES E PERSONALIDADES PSICÓTICAS


NEUROSES E PERSONALIDADES PSICÓTICAS
Quanto mais leio sobre o comportamento humano, do ponto de vista individual ou coletivo, mais me impressionam algumas condutas. Recentemente um amigo relatou-me o fato de que uma pessoa havia jurado destruí-lo, pessoal e profissionalmente. Fiquei imaginando o grau de frustação dessa pessoa para tornar o outro o objeto do seu ódio e de sua vingança. Em regra, as pessoas que sentem inveja ou ciúme projetam no outro o seu objeto de desejo. A frustração por não conseguir o que se pretende, por não ter o mesmo grau de inteligência ou sucesso pessoal e profissional faz o indivíduo pretender destruir o objeto de seu próprio desejo. Matando-se o objeto, mata-se o desejo. Dedicar uma vida à destruição de alguém é o paroxismo da autoaniquilação. Se não posso ter ou ser o que desejo, atribuo meus fracassos a alguém, a quem admiro, e faço o possível para, paradoxalmente, destruí-lo. Em psicanálise, ouso dizer, trata-se de uma neurose obsessivo-compulsiva, que a meu ver enquadra-se no gênero de neuroses transferenciais, tal como definidas por Freud. Nesses casos, tem-se um superego que pode agir com crueldade quando se depara com a desobediência aos seus comandos; pulsões agressivas mal resolvidas e um ideal de ego que está pleno de expectativas, algumas irrealizáveis. Existem mecanismos defensivos em relação a esse tipo de neurose, como a anulação, o isolamento ou a intelectualização, mas o fato é que o ego do indivíduo está submetido a um superego tirânico e é pressionado pelas pulsões do id. 
Bem, essa é uma explicação psicanalítica para esse tipo de problema. E deixo claro que não sou especialista na matéria. No entanto, tais comportamentos me surpreendem. Ouvi certa feita um relato de que uma pessoa, exercendo um cargo de chefia, reportou-se ao seu subordinado dizendo, literalmente, que tinha ciúmes desse subordinado. Recomendou que o subordinado não pretendesse dar voos muito altos e se recolhesse ao seu lugar. Esse tipo de comportamento a meu ver ilustra a relação entre obsessão e compulsão. No primeiro caso, tem-se os pensamentos que se infiltram na mente do indivíduo, atormentando-o. No segundo caso, tem-se uma reação comportamental, com o objetivo de frear o pensamento. Em toda neurose há um traço de psicose. E essa parte psicótica da personalidade tem características marcantes: pulsões destrutivas, como a inveja; angústia de aniquilamento; baixo índice de tolerância às frustrações; e o uso dos splittings, que são um mecanismo de defesa que faz com que o indivíduo seja incapaz de reunir as qualidades positivas e negativas numa mesma pessoa. Nos casos extremos o indivíduo se diz perseguido, injustiçado, perde a capacidade de discriminação, projetando esses temores e ansiedades.
Refletir sobre essas questões sempre exerceu sobre mim um fascínio especial. É um descortinar as pessoas e a si mesmo diante de constatações que são absolutamente difíceis de aceitar. Mas o grau de perversidade dos atos praticados pelos indivíduos que sofrem desses males pode ser absolutamente danoso. Muitos são ardilosos, manipuladores, apresentam-se como vítimas dos outros e, não raro, conquistam a adesão das pessoas, que não conseguem à primeira vista discernir no indivíduo o seu caráter psicótico ou neurótico. Muitos temem aqueles que consideram mais sábios, mais inteligentes, mais preparados. Pensar sobre essas questões não é fácil, pois nos deparamos muitas vezes com um espelho no qual não vemos uma imagem invertida de nós mesmos. Mas o fato é que tais pessoas podem causar inúmeros estragos a si mesmas e aos outros com quem são obrigadas a conviver. Não é fácil identificá-las, sem identificar em nós mesmos que tipos de neuroses ou psicoses possuímos. Difícil tarefa de autoconhecimento.

Fernando Amorim