"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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domingo, 22 de janeiro de 2017

AOS PROFESSORES



Prezados colegas docentes.
 

Resolvi fazer algo diferente das habituais reuniões de professores. Não preciso aqui reiterar os avisos corriqueiros sobre digitação de notas, faltas, frequência às aulas, cumprimento de horários. Todos somos profissionais e conhecemos as nossas obrigações. Soa um tanto estranho que em todos os semestres tenhamos de relembrar alguém de suas atribuições funcionais. Eu diria que me sinto um tanto ridículo ao fazer isso. Após dez anos, não o farei mais. Peço-lhes desculpas por não ter assim decidido antes.
 

Escrevo-lhes, contudo, por razões outras. Sobretudo, pelo que mais importa. Nosso compromisso com aqueles que dependem, em maior ou menor grau, da nossa atuação. Todos nós, não importam o grau de titulação e dignidades acadêmicas que tenhamos, assumimos um compromisso com a educação. Queiramos ou não, estamos em sala de aula por considerarmos nossa atividade um dever moral, para conosco e para com a sociedade. É óbvio que também o fazemos por razões econômicas, mas sei que em que cada professor habita um sentimento de compromisso com a possibilidade de transformar a vida do outro e, assim, transformar a si mesmo.
 

Gostaria que refletíssemos sobre o papel que desempenhamos atualmente e o grau de compromisso com que o fazemos. Da mesma forma que temos alunos que às vezes nos abordam de maneira grosseira, ofensiva – e sei o quanto sofremos com isso –, temos docentes que não se sensibilizam com os alunos, tratando-os com indiferença e, principalmente, erigindo diante dos discentes a pior das barreiras: a barreira do conhecimento. Nenhum saber, por maior, mais profundo e mais complexo que seja pode servir de obstáculo, impedimento, recusa. Nenhum saber pode ensejar a rejeição. Nenhum saber se constrói a partir do silêncio. Voltar as costas para um estudante, negar-se a responder-lhe as perguntas, tratá-lo com ironia são atitudes que podem comprometer toda uma carreira, fazendo morrer no nascedouro algo que poderia florescer. O conhecimento edifica pontes entre as pessoas, jamais muros – e também sei o quanto os alunos sofrem com isso.
 

Creio que há um consenso diante do fato de que o processo de aprendizagem pertence ao aluno. Eu penso assim. Mas estou convicto de que cabe ao professor conduzir esse processo. Não precisamos ser complacentes com os alunos. O melhor a fazer por eles é sermos rigorosos, justos, cobrando dos discentes as suas responsabilidades, mas sobretudo orientando-os quanto às suas atitudes. Lidamos com jovens em tenra idade e com adultos inteiramente formados. Essas relações são complexas. Mas quais relações humanas não o são? Se decidimos ser professores, devemos estar aptos para lidar com isso. E não existem fórmulas para tanto. Temos no máximo as técnicas pedagógicas. Mas ninguém se torna um professor. É-se professor, e pronto. As técnicas apenas aprimoram o que em nós existe.
 

Muitas vezes acusamos os alunos de não assumirem suas responsabilidades. Infelizmente, o estudo sério não ingressa na lista de prioridades de algumas pessoas. E não adianta aconselharmos. Conselhos são infrutíferos. Precisamos dar o exemplo. Gostaria que olhássemos nossos alunos com outros olhos. Agir com rigor não significa ser rude. Se pretendemos ter um bom relacionamento interpessoal, jamais devemos transferir para os estudantes o desconforto que sentimos quando fomos advertidos pela Coordenação em razão de um problema havido em sala de aula.
 

Precisamos dar sempre o máximo de nós. Não devemos esperar o reconhecimento. Quem assim age vê-se frustrado com frequência, e não deixa de haver certo cinismo nessa postura. Sejamos francos com os alunos, estejamos abertos para ouvi-los. Sejamos capazes de dizer sim, quando preciso; e não, quando necessário. Mas sejamos sempre atenciosos. Esses mais de vinte anos de atividade acadêmica forjaram em mim uma certeza: lidamos com pessoas, por óbvio, e em muitos casos as pessoas apenas querem se fazer ouvir. E quantas vezes nós não gostaríamos de ser ouvidos pelos nossos alunos? Quantas vezes não nos sentimos falando para as paredes, questionando se valem a pena o sacrifício, a dedicação, o empenho?
 

Eu respondo. Valem a pena, sim. Por sacrifício entendo o compromisso diário com o estudo. O preparar as aulas, ministrá-las com clareza, objetividade, leveza e, por que não, uma boa dose de senso de humor. Não o humor chulo dos dias de hoje, mas a ironia fina que o conhecimento proporciona. Por dedicação entendo a atenção em sala, a urbanidade no trato com colegas e alunos, a seriedade ao dirigir-se ao discente, o exercício de uma autoridade que se impõe por si só. A autoridade do conhecimento, que não precisa ser exibida, posto que emana naturalmente. Por empenho eu concebo a abnegação, o fazer o melhor, sempre, para os alunos, e, principalmente, para si mesmo.
 

O resultado não será colhido hoje ou amanhã. Talvez sequer o percebamos. Mas estejam certos de que ele estará lá, todas as vezes que um aluno nos procurar para solicitar uma carta de recomendação, tirar uma dúvida, compartilhar uma angústia pessoal ou profissional. O resultado vem quando olhamos as cadeiras vazias numa sala de aula e pensamos em quantos sonhos por ali passaram, quantas frustrações foram ali suplantadas e quantas alegrias ali foram semeadas.
 

Termino pedindo-lhes que reflitam sobre isso. Não custa nada explicar aos alunos o porquê de determinadas decisões que tomamos. E os alunos sabem, sim eles sabem, tanto quanto nós, que nenhum docente entra em sala de aula com o objetivo de causar algum tipo de mal ao aluno. E isso ocorre por uma simples razão: quem assim age não é professor. Que a razão nos ilumine a todos e o amor pelo conhecimento nos faça cumprir nossas tarefas. Como Coordenador estarei mais vigilante, ouvindo a todos, docentes e discentes, e fazendo o que me compete fazer: co-ordenar. Não me eximirei da obrigação de ordenar, quando for preciso, mas o farei sempre a partir das minhas convicções, construídas na escuta do outro.
Fernando Amorim