"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A INVEJA


Certa feita um ex-chefe e colega de profissão que tive no poder público olhou-me nos olhos e disse ter inveja de mim. E acrescentou de imediato, “mas uma inveja boa”. Saí da sala pensando como alguém pode sentir uma “inveja boa” de alguém. A inveja faz não apenas o sujeito desejar ser o que o outro é e ter o que o outro tem. Ela vai mais além, pois o invejoso deseja, em verdade, a destruição do detentor do próprio objeto da sua inveja. A inveja pressupõe uma negação hostil do objeto necessitado.
Em sua obra Fundamentos Psicanalíticos, hoje um clássico da psicanálise, David Zimerman relata que a principal dificuldade do invejoso reside na aceitação da sua própria condição. O invejoso apresenta-se numa posição esquizoparanóide, ou seja, ele não sente culpas e não assume suas responsabilidades, ao contrário, tende a racionalizar sua condição como uma reação de defesa à inveja alheia e aos ataques que pensa sofrer por parte dos outros. O invejoso sempre realiza um jogo de comparação com as demais pessoas. E nessa relação só existem vencedores e perdedores.
Para diminuir a dor da privação, só restam duas saídas ao indivíduo invejoso: arrebatar o objeto desejado à força ou por meio de atitudes maquiavélicas; ou, ainda, privar o outro da posse do objeto cobiçado, denegrindo a imagem do seu opositor. O curioso é que os invejosos podem sofrer de depressão narcisística, apresentando um sentimento de vergonha (ideal do ego X ego real) e de humilhação (ego ideal X ego real). A inveja torna-se, assim, uma medida de sobrevivência psíquica, mas inibe no invejoso a capacidade de amar.
Não preciso ir muito além para dizer que o indivíduo invejoso pode causar muito mal aos outros. Eu próprio, e muitos outros colegas, já fomos objeto dessa fúria do invejoso. Não vou detalhar os fundamentos psicanalíticos que estão na origem desse sentimento, mas ter um invejoso no ambiente de trabalho pode causar um mal terrível a todos. Principalmente àqueles que se contaminam facilmente com a identificação projetiva do invejoso.
Fernando Amorim