"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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domingo, 4 de dezembro de 2016

FOI-SE FERREIRA GULLAR



Foi-se Ferreira Gullar. Em homenagem um trecho do "Poema Sujo". 
 
"Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se
meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê
Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai
corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem
ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre."

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A INVEJA


Certa feita um ex-chefe e colega de profissão que tive no poder público olhou-me nos olhos e disse ter inveja de mim. E acrescentou de imediato, “mas uma inveja boa”. Saí da sala pensando como alguém pode sentir uma “inveja boa” de alguém. A inveja faz não apenas o sujeito desejar ser o que o outro é e ter o que o outro tem. Ela vai mais além, pois o invejoso deseja, em verdade, a destruição do detentor do próprio objeto da sua inveja. A inveja pressupõe uma negação hostil do objeto necessitado.
Em sua obra Fundamentos Psicanalíticos, hoje um clássico da psicanálise, David Zimerman relata que a principal dificuldade do invejoso reside na aceitação da sua própria condição. O invejoso apresenta-se numa posição esquizoparanóide, ou seja, ele não sente culpas e não assume suas responsabilidades, ao contrário, tende a racionalizar sua condição como uma reação de defesa à inveja alheia e aos ataques que pensa sofrer por parte dos outros. O invejoso sempre realiza um jogo de comparação com as demais pessoas. E nessa relação só existem vencedores e perdedores.
Para diminuir a dor da privação, só restam duas saídas ao indivíduo invejoso: arrebatar o objeto desejado à força ou por meio de atitudes maquiavélicas; ou, ainda, privar o outro da posse do objeto cobiçado, denegrindo a imagem do seu opositor. O curioso é que os invejosos podem sofrer de depressão narcisística, apresentando um sentimento de vergonha (ideal do ego X ego real) e de humilhação (ego ideal X ego real). A inveja torna-se, assim, uma medida de sobrevivência psíquica, mas inibe no invejoso a capacidade de amar.
Não preciso ir muito além para dizer que o indivíduo invejoso pode causar muito mal aos outros. Eu próprio, e muitos outros colegas, já fomos objeto dessa fúria do invejoso. Não vou detalhar os fundamentos psicanalíticos que estão na origem desse sentimento, mas ter um invejoso no ambiente de trabalho pode causar um mal terrível a todos. Principalmente àqueles que se contaminam facilmente com a identificação projetiva do invejoso.
Fernando Amorim

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ASSÉDIO MORAL NO SERVIÇO PÚBLICO

FONTE: http://www.ouvidoria.mppr.mp.br/arquivos/File/cartilha.pdf

Os gestores públicos devem abrir os olhos para esse problema. O assédio moral na administração pública é uma realidade muito mais comum do que imaginamos. O assédio moral é a forma mais vil, torpe e covarde de violência no ambiente de trabalho, uma vez que nem sempre os elementos de prova estão evidentes. O assédio se traveste da falsa gentileza, do comentário maldoso, do elogio insincero. Quem assedia, tanto pode fazê-lo por ação quanto por omissão. Não lotar o servidor em local em que pode render mais e ser mais eficiente, não lhe fornecer os instrumentos de trabalho, não adotar providências para evitar que o servidor se ponha em situação vexatória são condutas omissivas tão graves quanto as ofensas pessoais e o patrulhamento da conduta do servidor. O STJ já decidiu que assédio moral é ato de improbidade administrativa. Os quase vinte anos que possuo no serviço público, como procurador, ensinaram-me que o silêncio do servidor assediado é muito eloquente. A covardia, inveja, incompetência e fraqueza de caráter de quem assedia estão escondidas, em boa parte das vezes, sob a máscara da simpatia e amistosidade. Infelizmente, poucos são os entes públicos que possuem códigos de conduta capazes de coibir esse mal.