"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sexta-feira, 16 de maio de 2014

HOMEM CORDIAL?



Vi recentemente o jornalista Alexandre Garcia, da Globo,  utilizar a expressão “brasileiro, homem  cordial” de maneira equívoca,  no sentido assimilado pelo senso comum, sendo prontamente corrigido pelo entrevistado. Há uma interpretação recorrente e equivocada da expressão "homem cordial", atribuída à obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Muita gente vê no caráter do brasileiro uma cordialidade assemelhada à bondade, o que não é verdade. Eis os equívocos: 1) A expressão não é de Sérgio Buarque, mas do escritor Ribeiro Couto, em carta que endereçou a Alfonso Reyes. Buarque faz dela um uso específico em sua obra, em especial no capítulo 5 de Raízes do Brasil; 2) A expressão foi deturpada por Cassiano Ricardo, que viu na cordialidade uma necessária bondade. Curiosamente, o termo foi mal interpretado e serviu para "definir" um aspecto do caráter nacional que não existe, em absoluto! 3) Para Sérgio Buarque, o homem cordial é avesso aos formalismos e convencionalismos sociais. Mas é um engano afirmar que virtudes como hospitalidade, generosidade, sejam exemplos de civilidade, uma vez que nossa forma de convívio social é antípoda (contrária) da polidez. Buarque faz referência a uma “ética de fundo emotivo” que faz com que definamos nossas relações a partir do “outro”, ou seja, a partir da nossa necessidade de escapar do desconforto de apoiarmos sobre nós mesmos as circunstâncias da nossa existência. Ampliamos para o social essa parcela na nossa intimidade. Em razão disso, em lugar de sermos simplesmente polidos, preferimos transformar o que é estranho em familiar, íntimo, privado. Tanto a amizade, quanto a inimizade, podem ser, nesse caso, cordiais, pois ambas emanam do coração (do latim corde). Não somos um povo pacífico e generoso, apenas partilhamos socialmente a angústia de sermos responsáveis, individualmente, pelo nosso destino.

Segue trecho de Raízes do Brasil e a nota de fim de capítulo na qual Sérgio Buarque esclarece o sentido da expressão.
“No “ homem cordial” , a vida em sociedade é, de certo modo,
uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo
mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da
existência.”

“A expressão é do escritor Ribeiro Couto, em carta dirigida a Alfonso Reyes e por este inserta em sua publicação Monterey. Não pareceria necessário reiterar o que já está implícito no texto, isto é, que a palavra “ cordial” há de ser tomada, neste caso, em seu sentido exato e estritamente etimológico, se não tivesse sido contrariamente interpretada em obra recente de autoria do sr. Cassiano Ricardo onde se fala no homem cordial dos aperitivos e das “ cordiais saudações” , “ que são fechos de cartas tanto amáveis como agressivas” , e se antepõe à cordialidade assim entendida o “ capital sentimento” dos brasileiros, que será a bondade e até mesmo certa “ técnica da bondade”, “ uma bondade mais envolvente, mais política, mais assimiladora”, para melhor frisar a diferença, em verdade fundamental, entre as idéias sustentadas na referida obra e as sugestões que propõe o presente trabalho, cabe dizer que, pela expressão “ cordialidade” , se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas a que parece inclinar-se o sr. Cassiano Ricardo, quando prefere falar em “ bondade” ou em “ homem bom” .
Cumpre ainda acrescentar que essa cordialidade, estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado. Pertencem, efetivamente, para recorrer a termo consagrado pela moderna sociologia, ao domínio dos “ grupos primários”, cuja unidade, segundo observa o próprio elaborador do conceito, “ não é somente de harmonia e amor” . A amizade, desde que abandona o âmbito circunscrito pelos sentimentos privados ou íntimos, passa a ser, quando muito, benevolência, posto que a imprecisão vocabular admita maior extensão do conceito. Assim como a inimizade, sendo pública ou política, não cordial, se chamará mais precisamente hostilidade. A distinção entre inimizade e hostilidade, formulou-a de modo claro Carl Schmitt recorrendo ao léxico latino: “Hostis is est cum quopublice bellum habemus [...] in quo ab inimico differt, qui est is, quocum habemus privata odia...”. Carl Schmitt, Der Begriff des Politischen (Hamburgo, s. d. [1933]), p. 11, n.”