"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 15 de fevereiro de 2014

O SALGUEIRO


Pequena crônica que estava inacabada.

O SALGUEIRO

Uma corrente de ar entrou pela janela entreaberta da varanda do quarto, trazendo com ela o frêmito das folhas do salgueiro-chorão que ornava o jardim. Era um vento frio para uma tarde de Outono, talvez o prenúncio de um Inverno rigoroso naquele ano. Apoiando-se na balaustrada da varanda, Isadora entregou-se à lufada de ar. Inclinando a cabeça, fechou os olhos e inspirou profundamente. O vento frio causou-lhe um leve rubor na face, um sopro de vida acentuado pelo contraste com a pele branca, quase lívida, de quem há muito não se expunha ao sol. Ao reabrir os olhos, a face rubra já havia desaparecido, devolvendo-lhe a habitual expressão de tristeza. A luminosidade tênue do entardecer penetrava a folhagem espessa do velho salgueiro, projetando na janela da varanda os contornos dos galhos que naturalmente pendiam em direção ao solo, justificando a imagem de que a árvore parecia, de fato, chorar. Isadora fitou-a por algum tempo, perscrutando as razões pelas quais uma planta tão frondosa emulava uma melancolia que se transformara numa alcunha e a nominava pela aparência. “Uma árvore não tem consciência da sua finitude”, pensou, “e suas perdas limitam-se às folhas caídas no Outono e recuperadas na Primavera”. De algum modo, Isadora estava convencida de que todas as suas dores pareciam pesar sobre cada um dos galhos daquela árvore, fazendo-os ceder até tocarem o chão. A tristeza do salgueiro era o resultado das suas próprias projeções. A diferença estava no fato de que, ao contrário do salgueiro, ela dificilmente vertia uma lágrima. Por maiores que fossem as suas perdas – e elas eram muitas e dolorosas –, decidira que a tristeza não cairia dos seus olhos. O salgueiro choraria por ela.

Quando se tratava de expressar suas emoções, Isadora sempre fora econômica. Talvez por isso ela tivesse tanta dificuldade em lidar com as lembranças, em especial as mais dolorosas. Não sabia como expressá-las. Até então, sua existência não havia sido outra coisa senão uma sucessão infindável de lembranças ruins. Quem não a conhecesse, certamente faria um julgamento equivocado sobre a sua vida. Sua rápida ascensão profissional custou-lhe um alto preço pessoal. E disso as pessoas não sabiam, ou não tinham o mínimo interesse em saber. Apenas os sinais exteriores do sucesso interessam ao mundo. Para ela, porém, o caminho havia sido muito mais longo do que aparentava.

Retornando ao quarto, Isadora voltou a folhear o velho álbum de fotos que deixara aberto sobre a cama. Álbuns de fotografias são coisa rara nestes tempos em que todas as memórias estão online. Mas o prazer de reconstruir o passado a partir desses fragmentos do presente, capturados e imobilizados num pedaço de papel, só se pode sentir folheando-se os álbuns de fotos. Parece existir uma relação oculta entre o tempo e as imagens impressas. O presente condensado nas fotos deixa ao encargo das franjas da memória o trabalho de tecer as costuras entre as imagens. E essas ligações nunca são as mesmas. Cada vez que se abre um álbum de fotografia, o passado mudou, e o álbum, também.

Isadora deteve-se numa foto. Era uma imagem sua aos 10 anos. Havia algo diferente naquele olhar. Não era súplica, raiva ou medo, mas um vazio. Um imenso e desconcertante vazio. Quando se deparou com aquela imagem pela primeira vez, um sentimento desconhecido e, talvez por isso, incômodo, assomou-lhe. O mesmo sentimento continuava a preencher sua alma todas as vezes que olhava aquela foto. Os olhos negros daquela criança não tinham brilho. Não tinham vida. “Eu não fui assim”, pensou. “Eu não sou assim”. Mas o tempo parecia ter-se congelado em seus olhos. Ou talvez fossem seus olhos que haviam capturado e congelado a passagem do tempo. Uma temporalidade diferente daquela a que as pessoas estão acostumadas. Um tempo interior, como se a alma fosse um artefato resiliente às mudanças que a vida impõe e, a despeito delas, conservasse suas feições originais. Por mais que Isadora se recusasse a aceitar a verdade, aquela foto era a imagem mais fiel do vazio que sempre a preencheu. "Mas esse vazio não a consumiria. Não mais!”

A penumbra do início da noite começava a incidir sobre o quarto, acentuando os tons negros das fotos em preto e branco. Isadora ergueu-se, postando-se diante do espelho. Levantou a blusa e, na semiescuridão, acariciou o ventre. Nenhuma alteração podia ser vista, ainda. Mas ela sentia e sabia que algo estava mudando. Uma mudança inesperada. Tão inesperada quanto inexorável. E não havia uma explicação racional. As mulheres apenas sabem quando uma nova vida se forma dentro delas. Isadora levantou um pouco mais a blusa e tocou os seios. Também não havia mudanças visíveis e os seios não estavam intumescidos. Mas ela tinha certeza de que em breve todo o seu corpo se alteraria para preparar e conceber o novo ser. Fechando os olhos, tentou não pensar nas consequências da decisão que tomara. Uma nova corrente de ar entrou pela janela da varanda e o vento frio enrijeceu-lhe os mamilos, fazendo-a baixar a blusa num gesto instintivo de pudor maternal. O frêmito das folhas do salgueiro parecia chamá-la. Atendendo ao chamado, Isadora retornou à varanda.

Não havia lua visível no céu. O balançar das folhas denunciava a presença do salgueiro-chorão que se escondia sob o manto da noite sem estrelas. Isadora não tinha ideia de quanto tempo permanecera à frente do espelho. Voltando-se na direção do salgueiro, passou a escutar o sussurro das folhas. A árvore parecia aquiescer à decisão que ela tomara. O vazio de sua alma havia aumentado. Uma dor profunda tomou-lhe peito e, pela primeira vez em muitos anos, Isadora sentiu uma imensa vontade de chorar. Embora houvesse decidido que o salgueiro choraria por ela, aquela era uma dor que apenas ela poderia suportar. Por um segundo o vento parou, como se o mundo suspendesse a respiração para aguardar as lágrimas frias que escorriam pela face de Isadora. Ela tomara sua decisão e ninguém poderia censurá-la por isso. Envoltos pela escuridão, os galhos do salgueiro-chorão vergaram-se um pouco mais em direção ao solo, como se um peso maior lhes houvesse sido adicionado. Estranhamente, contudo, a árvore não mais parecia chorar...

Fernando Amorim