"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Carta ao Presidente do Fluminense



Prezado Presidente Peter Siemsen.
Sou tricolor desde sempre. Estou convicto disso. Mas as minhas lembranças de infância revelam que sou tricolor ao menos desde os 10 anos de idade, quando acompanhei pelo rádio o título carioca do Fluminense, em  1980. Vencemos o Vasco com um gol de falta de Edinho. Aquele gol marcou a minha infância de torcedor. A infância de um menino que vivia no interior do Nordeste e torcia por um clube do Rio de Janeiro. Coisas do colonialismo cultural e do provincianismo brasileiro!

O Fluminense, Presidente, nasceu como um clube de elite. Não há mal algum nisso. Muitos clubes de futebol no Brasil também nasceram para representar as camadas mais abastadas da população. Felizmente, a popularização do futebol fez com que hoje tenhamos torcedores em todos os extratos sociais. Mas o que sempre nos distinguiu e nos conferiu uma identidade, fôssemos ricos, pobres ou remediados, era o fato de que, se havia algum sentido em sermos representantes de uma aristocracia, esse sentido só se poderia traduzir na expressão máxima de valores como honra, moral, decência, fidalguia. Não éramos os detentores exclusivos desses valores, mas sempre nos vangloriamos de sermos um clube que “fascina pela sua disciplina”, como diz o mais belo dos hinos dos clubes de futebol. Lamento reconhecer, Presidente, hoje não mais é assim.

O recente episódio do rebaixamento da Portuguesa e a manutenção do Fluminense na série A do campeonato brasileiro nos tornaram, a nós tricolores, mais uma vez, os alvos de um achincalhe moral. E nós demos causa a isso. As críticas que nos são endereçadas por parte da imprensa e por muitos torcedores de outros clubes equivocam-se na distinção entre legalidade e moralidade. Mas há um fundo de verdade em todas elas. O Fluminense fechou os olhos para uma dimensão da moralidade que não se manifesta apenas nas leis e regulamentos, pois está além do que dizem os textos legais. Não devemos ser condenados porque efetuamos uma virada de mesa. Não por isso. Do ponto de vista estritamente legal, a Portuguesa deu causa à sua punição e o STJD, talvez com excessivo rigor, aplicou o regulamento. Dura lex sed lex!  Mas nós perdemos a nossa vaga no campo. A escalação irregular do atleta da Portuguesa não interferiu, no campo de jogo, no resultado final do campeonato. O Fluminense foi vítima dos seus próprios erros. Erramos nas contratações de jogadores e técnicos. Erramos no planejamento e nas escalações. Pecamos pela soberba e, por isso, somos hoje um clube de uma cooperativa de médicos (com todo o respeito aos médicos).

O Senhor, Presidente, ainda tentou minimizar os estragos, declarando que o Fluminense nada tinha a ver com os problemas da Portuguesa e do Flamengo. Mas por que razão nós enviamos um advogado para o STJD? Por que razão, de forma patética, efetuamos a defesa de um clube que, ao menos pelas declarações do seu Presidente, não queria se apresentar como terceiro interessado? Sei que as pressões econômicas são muitas e que há muitos interesses em jogo. Mas tais interesses se sobrepuseram aos valores morais que sempre foram cultivados pelos verdadeiros tricolores. Lembro-me de uma antiga entrevista do Presidente Horta, na qual ele dizia do prazer que teria em assistir a um Fla-Flu, nas tribunas de honra de um Maracanã lotado, e, qualquer que fosse o resultado do jogo, poder apertar a mão do Presidente do Flamengo, como fazem os bons contendores. Adversários, sempre; inimigos, jamais! Essa era a fidalguia que alimentava a paixão pelas cores verde, branca e grená do Fluminense. Essa postura, infelizmente, parece fazer parte da história.

Mas ainda podemos corrigir isso, Presidente. Sei que o Senhor é uma pessoa íntegra e bem intencionada. Falta-lhe apenas a coragem de dar um exemplo a todos os tricolores e a todos os brasileiros. Cedamos a vaga na série A em 2014, que não conquistamos no campo, ao quinto colocado da série B em 2013 ou à própria Portuguesa. A CBF e o STJD que decidam. A torcida do Fluminense, Presidente, acompanhará o clube em qualquer divisão. Seguiremos o exemplo do Santa Cruz, que com dignidade está sendo levado por sua torcida da série D até a série A, para onde certamente retornará. Disputaremos a segunda divisão com um time de garotos formados na base. Talvez não retornemos à série A de imediato, mas teremos a nossa dignidade e a nossa honra de volta. Sei que uma decisão dessa natureza irá lhe custar o cargo. Sei que uma decisão dessa natureza poderá afundar o clube que o Senhor tanto ama. Mas o Senhor deve fazer isso porque tem o dever de fazê-lo. Só por isso. Como diria Kant, o valor moral de uma ação não está nas suas consequências, mas no fato de que a realizamos por ser a coisa certa a fazer.

Saudações tricolores.

Fernando Sérgio T. de Amorim