"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 11 de outubro de 2014

O QUE UM PROFESSOR NÃO É


Dessin: Philippe GELUCK http://www.geluck.com/








O que significa ser professor? Eu poderia tentar fornecer uma definição essencialista da atividade docente, bem ao gosto de uma postura fenomenológica que me é tão cara, mas correria o imenso risco de recair nos inúmeros lugares comuns que invadem essas definições. Tomarei um outro caminho. Também óbvio, por certo, mas ainda assim um caminho diverso. Começarei por dizer o que, a meu ver, um professor NÃO é (ou ao menos não deveria ser). Definições negativas servem para isso, depurar o sentido do objeto definido, desbastando o terreno para que se veja com maior clareza o que se pretende analisar, o que não deixa de ser um recurso ao método fenomenológico!
O professor não é um facilitador do conhecimento. Pedagogos modernosos insistem nessa expressão. Como atualmente todos os saberes estão em rede, e as conexões em rede fazem com que qualquer pessoa tenha acesso a informações que se propagam em escala exponencial, a figura do docente, detentor de um conhecimento especializado e capaz de transmiti-lo aos seus alunos, pareceu ficar obsoleta. De imediato procurou-se dar uma nova roupagem à velha atividade docente. O professor passou a ser um facilitador, alguém que apenas conduzirá o aluno pelas veredas do conhecimento. Essa é uma meia verdade.
Deixo claro que não desconheço as bases teóricas dessa mudança e suas implicações pedagógicas. Mas não irei explaná-las aqui, pois não seria o local e o modo apropriados. Com efeito, a maneira como as pessoas lidam com a informação e o conhecimento mudou radicalmente nos últimos cinquenta anos, mas isso não leva à conclusão inevitável de que professores transmutaram-se em meros facilitadores. Alguém poderia objetar que o aluno é, atualmente, o grande responsável pelo conhecimento que adquire. Essa afirmação, no entanto, baseia-se na falsa premissa de que somente com a conexão dos saberes em rede os alunos puderam se desvencilhar das velhas práticas docentes. Não defendo práticas pedagógicas antigas, pelo contrário, mas tal afirmação deixou a situação muito cômoda para muita gente, em especial para os próprios professores. Explico.
O corolário da afirmação de que o professor é um facilitador é a noção equivocada de que a sala de aula deve se tornar atraente para o aluno. Para isso, as aulas devem ser divertidas, sendo o docente a ponte entre o conhecimento e a diversão. O truísmo dessa afirmação beira o non-sens. Um indivíduo medianamente informado sabe perfeitamente que em qualquer ramo da atividade humana o conhecimento será melhor assimilado quando transmitido com leveza, clareza e objetividade. Mas isso não quer dizer que estudar, e aprender, seja sempre divertido, não é! Ou, pelo menos, nem sempre é divertido.
Todo profissional que efetivamente gosta do que faz, esforça-se para tornar sua atividade mais atraente. Um piloto de uma aeronave, por exemplo, pode transmitir as informações de voo aos seus passageiros de inúmeras formas, mas a maioria deles se esforça para transmiti-las de maneira a diminuir a tensão dos viajantes, em especial daqueles que temem as viagens de avião. Com os professores não será diferente. Mas ser claro e objetivo ao lecionar não fará da sala de aula um ambiente mais ou menos atraente. E assim ocorre porque clareza e objetividade não são sinônimos de simplificação de saberes que, na sua essência, são complexos e de difícil compreensão.
O senso comum elege como bom professor aquele capaz de divertir os alunos, transformando o que é complexo em simples. O professor, no entanto, não é um alquimista capaz de simplificar temas complexos. Os alunos devem desconfiar de quem propõe tal velhacaria. Temas complexos e difíceis devem ser tratados na medida da sua dificuldade e complexidade. A motivação e a paixão ao transmitir o conhecimento não devem ser confundidas com capacidade de simplificação. Assuntos complexos, como a teoria das cordas, na Física; o cálculo diferencial, na Matemática; ou uma questão de Direito Constitucional ou Internacional (perdoem-me os físicos e matemáticos!), devem ser tratados com a solenidade e reverência que os temas complexos suscitam para o entendimento humano. O atrativo, nesses casos, não está na simplificação, mas na clareza, objetividade e precisão da exposição, capazes de fazer o aluno esforçar-se para suplantar suas próprias limitações e vencer as barreiras impostas pela complexidade desses saberes. O deleite e o prazer da atividade cognoscente reside na superação das nossas próprias limitações intelectuais e heurísticas. Em educação, não existem atalhos ou caminhos mais fáceis e simples.
Estudar pode ser divertido? Pode e deve. Assim como trabalhar pode e deve ser divertido. E não é à toa que os franceses usam o verbo travailler (trabalhar) para se referir às obrigações estudantis. Mas o trabalho e o estudo são atividades que exigem concentração, disciplina, dedicação. Quem gosta de estudar, ou gosta do trabalho que executa, vê no estudo e no trabalho um deleite, atividades essencialmente prazerosas. Mas nem todos encaram a vida acadêmica dessa forma e, em razão disso, exigem que o professor transforme dedicação, concentração e disciplina em algo mais palatável. Esvai-se o conhecimento pelo ralo da simplificação grosseira, ficam as piadas e a diversão na sala de aula.
Essa atitude é muito cômoda para muitos docentes. Se o conhecimento está disponível em rede e os alunos são responsáveis pelo que aprendem, não mais há razão para que o professor-facilitador domine com profundidade os conteúdos da disciplina que leciona. Isso faz com que algumas escolas e professores do ensino fundamental, por exemplo, preocupem-se em incutir nas crianças o conceito de cidadania, esquecendo-se de ensinar minimamente os conteúdos mais basilares de gramática, história ou matemática.
O professor tem a obrigação de conhecer com grande profundidade os conteúdos da disciplina que leciona. Alunos não precisam de quem lhes facilite o caminho, transformando o que é difícil em algo fácil. O que é difícil continuará a sê-lo, e exigirá mais dedicação do estudante para que possa ser compreendido. Alunos precisam, sim, de docentes que lhes transmitam com clareza, objetividade e paixão os conteúdos, simples ou complexos, aprendidos ao longo de uma vida de dedicação ao estudo. Só assim os estudantes estarão aptos para alçar voos sozinhos. E para quem pensa que somente agora os alunos passaram a ser considerados os sujeitos do conhecimento, lembro a maiêutica socrática: “Dar à luz ao saber não está em meu poder, e a censura que vários já me fizeram de que, ao colocar questões aos outros, não dou jamais nenhuma opinião pessoal sobre qualquer assunto, e que causa disso é a nulidade do meu próprio saber, é censura verídica..”.
Feliz 15/10, dia dos professores!
                Fernando Amorim