"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 13 de dezembro de 2014

ECONOMIA E EDUCAÇÃO





Em 2005, o saldo da balança comercial brasileira  (a diferença entre o que o país exporta e  aquilo que importa) era positivo e estava em cerca de 19 bilhões de dólares. Em 2014, o saldo, até a metade do ano, é negativo, ou seja, déficit de mais de 2,4 bilhões de dólares. Compramos mais do que vendemos. Os gráficos  abaixo, retirados de relatório do próprio Governo Federal (Ministério da Indústria), ilustram bem a gravidade do problema. Não há competitividade na indústria nacional e o número de empresas exportadoras diminuiu em relação aos anos anteriores. Embora não seja economista, e nessa matéria não ouso sequer dar palpites, arrisco uma conclusão, óbvia, penso eu, porém não econômica. O setor de serviços, impulsionado pela ampliação da distribuição de renda dos últimos anos, não dá conta sozinho de segurar o crescimento do país. Sem uma indústria forte, estamos fadados à estagnação. A despeito de condições econômicas favoráveis, a indústria só cresce se tiver mão de obra bem qualificada. E assim voltamos ao velho e principal problema do país: educação. Enquanto a educação no Brasil estiver atrelada à complacência ideológica e às pedagogias inúteis, que pretendem formar cidadãos em lugar de ensiná-los a ler, escrever e realizar as quatro operações, estaremos condenados ao fracasso. Enquanto o magistério, subvalorizado, não receber remuneração digna e plano de carreira fundado no mérito individual, nossos alunos não irão a lugar algum. Enquanto o poder público não entender (embora entenda muito bem...) que reformar escolas sai muito mais caro do que fazer a adequada manutenção dos prédios públicos, nossos estudantes e professores estarão obrigados a frequentar locais insalubres, para dizer o mínimo. Se nos movermos agora, em 30 anos teremos algum resultado.





sábado, 11 de outubro de 2014

O QUE UM PROFESSOR NÃO É


Dessin: Philippe GELUCK http://www.geluck.com/








O que significa ser professor? Eu poderia tentar fornecer uma definição essencialista da atividade docente, bem ao gosto de uma postura fenomenológica que me é tão cara, mas correria o imenso risco de recair nos inúmeros lugares comuns que invadem essas definições. Tomarei um outro caminho. Também óbvio, por certo, mas ainda assim um caminho diverso. Começarei por dizer o que, a meu ver, um professor NÃO é (ou ao menos não deveria ser). Definições negativas servem para isso, depurar o sentido do objeto definido, desbastando o terreno para que se veja com maior clareza o que se pretende analisar, o que não deixa de ser um recurso ao método fenomenológico!
O professor não é um facilitador do conhecimento. Pedagogos modernosos insistem nessa expressão. Como atualmente todos os saberes estão em rede, e as conexões em rede fazem com que qualquer pessoa tenha acesso a informações que se propagam em escala exponencial, a figura do docente, detentor de um conhecimento especializado e capaz de transmiti-lo aos seus alunos, pareceu ficar obsoleta. De imediato procurou-se dar uma nova roupagem à velha atividade docente. O professor passou a ser um facilitador, alguém que apenas conduzirá o aluno pelas veredas do conhecimento. Essa é uma meia verdade.
Deixo claro que não desconheço as bases teóricas dessa mudança e suas implicações pedagógicas. Mas não irei explaná-las aqui, pois não seria o local e o modo apropriados. Com efeito, a maneira como as pessoas lidam com a informação e o conhecimento mudou radicalmente nos últimos cinquenta anos, mas isso não leva à conclusão inevitável de que professores transmutaram-se em meros facilitadores. Alguém poderia objetar que o aluno é, atualmente, o grande responsável pelo conhecimento que adquire. Essa afirmação, no entanto, baseia-se na falsa premissa de que somente com a conexão dos saberes em rede os alunos puderam se desvencilhar das velhas práticas docentes. Não defendo práticas pedagógicas antigas, pelo contrário, mas tal afirmação deixou a situação muito cômoda para muita gente, em especial para os próprios professores. Explico.
O corolário da afirmação de que o professor é um facilitador é a noção equivocada de que a sala de aula deve se tornar atraente para o aluno. Para isso, as aulas devem ser divertidas, sendo o docente a ponte entre o conhecimento e a diversão. O truísmo dessa afirmação beira o non-sens. Um indivíduo medianamente informado sabe perfeitamente que em qualquer ramo da atividade humana o conhecimento será melhor assimilado quando transmitido com leveza, clareza e objetividade. Mas isso não quer dizer que estudar, e aprender, seja sempre divertido, não é! Ou, pelo menos, nem sempre é divertido.
Todo profissional que efetivamente gosta do que faz, esforça-se para tornar sua atividade mais atraente. Um piloto de uma aeronave, por exemplo, pode transmitir as informações de voo aos seus passageiros de inúmeras formas, mas a maioria deles se esforça para transmiti-las de maneira a diminuir a tensão dos viajantes, em especial daqueles que temem as viagens de avião. Com os professores não será diferente. Mas ser claro e objetivo ao lecionar não fará da sala de aula um ambiente mais ou menos atraente. E assim ocorre porque clareza e objetividade não são sinônimos de simplificação de saberes que, na sua essência, são complexos e de difícil compreensão.
O senso comum elege como bom professor aquele capaz de divertir os alunos, transformando o que é complexo em simples. O professor, no entanto, não é um alquimista capaz de simplificar temas complexos. Os alunos devem desconfiar de quem propõe tal velhacaria. Temas complexos e difíceis devem ser tratados na medida da sua dificuldade e complexidade. A motivação e a paixão ao transmitir o conhecimento não devem ser confundidas com capacidade de simplificação. Assuntos complexos, como a teoria das cordas, na Física; o cálculo diferencial, na Matemática; ou uma questão de Direito Constitucional ou Internacional (perdoem-me os físicos e matemáticos!), devem ser tratados com a solenidade e reverência que os temas complexos suscitam para o entendimento humano. O atrativo, nesses casos, não está na simplificação, mas na clareza, objetividade e precisão da exposição, capazes de fazer o aluno esforçar-se para suplantar suas próprias limitações e vencer as barreiras impostas pela complexidade desses saberes. O deleite e o prazer da atividade cognoscente reside na superação das nossas próprias limitações intelectuais e heurísticas. Em educação, não existem atalhos ou caminhos mais fáceis e simples.
Estudar pode ser divertido? Pode e deve. Assim como trabalhar pode e deve ser divertido. E não é à toa que os franceses usam o verbo travailler (trabalhar) para se referir às obrigações estudantis. Mas o trabalho e o estudo são atividades que exigem concentração, disciplina, dedicação. Quem gosta de estudar, ou gosta do trabalho que executa, vê no estudo e no trabalho um deleite, atividades essencialmente prazerosas. Mas nem todos encaram a vida acadêmica dessa forma e, em razão disso, exigem que o professor transforme dedicação, concentração e disciplina em algo mais palatável. Esvai-se o conhecimento pelo ralo da simplificação grosseira, ficam as piadas e a diversão na sala de aula.
Essa atitude é muito cômoda para muitos docentes. Se o conhecimento está disponível em rede e os alunos são responsáveis pelo que aprendem, não mais há razão para que o professor-facilitador domine com profundidade os conteúdos da disciplina que leciona. Isso faz com que algumas escolas e professores do ensino fundamental, por exemplo, preocupem-se em incutir nas crianças o conceito de cidadania, esquecendo-se de ensinar minimamente os conteúdos mais basilares de gramática, história ou matemática.
O professor tem a obrigação de conhecer com grande profundidade os conteúdos da disciplina que leciona. Alunos não precisam de quem lhes facilite o caminho, transformando o que é difícil em algo fácil. O que é difícil continuará a sê-lo, e exigirá mais dedicação do estudante para que possa ser compreendido. Alunos precisam, sim, de docentes que lhes transmitam com clareza, objetividade e paixão os conteúdos, simples ou complexos, aprendidos ao longo de uma vida de dedicação ao estudo. Só assim os estudantes estarão aptos para alçar voos sozinhos. E para quem pensa que somente agora os alunos passaram a ser considerados os sujeitos do conhecimento, lembro a maiêutica socrática: “Dar à luz ao saber não está em meu poder, e a censura que vários já me fizeram de que, ao colocar questões aos outros, não dou jamais nenhuma opinião pessoal sobre qualquer assunto, e que causa disso é a nulidade do meu próprio saber, é censura verídica..”.
Feliz 15/10, dia dos professores!
                Fernando Amorim
    

sexta-feira, 16 de maio de 2014

HOMEM CORDIAL?



Vi recentemente o jornalista Alexandre Garcia, da Globo,  utilizar a expressão “brasileiro, homem  cordial” de maneira equívoca,  no sentido assimilado pelo senso comum, sendo prontamente corrigido pelo entrevistado. Há uma interpretação recorrente e equivocada da expressão "homem cordial", atribuída à obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Muita gente vê no caráter do brasileiro uma cordialidade assemelhada à bondade, o que não é verdade. Eis os equívocos: 1) A expressão não é de Sérgio Buarque, mas do escritor Ribeiro Couto, em carta que endereçou a Alfonso Reyes. Buarque faz dela um uso específico em sua obra, em especial no capítulo 5 de Raízes do Brasil; 2) A expressão foi deturpada por Cassiano Ricardo, que viu na cordialidade uma necessária bondade. Curiosamente, o termo foi mal interpretado e serviu para "definir" um aspecto do caráter nacional que não existe, em absoluto! 3) Para Sérgio Buarque, o homem cordial é avesso aos formalismos e convencionalismos sociais. Mas é um engano afirmar que virtudes como hospitalidade, generosidade, sejam exemplos de civilidade, uma vez que nossa forma de convívio social é antípoda (contrária) da polidez. Buarque faz referência a uma “ética de fundo emotivo” que faz com que definamos nossas relações a partir do “outro”, ou seja, a partir da nossa necessidade de escapar do desconforto de apoiarmos sobre nós mesmos as circunstâncias da nossa existência. Ampliamos para o social essa parcela na nossa intimidade. Em razão disso, em lugar de sermos simplesmente polidos, preferimos transformar o que é estranho em familiar, íntimo, privado. Tanto a amizade, quanto a inimizade, podem ser, nesse caso, cordiais, pois ambas emanam do coração (do latim corde). Não somos um povo pacífico e generoso, apenas partilhamos socialmente a angústia de sermos responsáveis, individualmente, pelo nosso destino.

Segue trecho de Raízes do Brasil e a nota de fim de capítulo na qual Sérgio Buarque esclarece o sentido da expressão.
“No “ homem cordial” , a vida em sociedade é, de certo modo,
uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo
mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da
existência.”

“A expressão é do escritor Ribeiro Couto, em carta dirigida a Alfonso Reyes e por este inserta em sua publicação Monterey. Não pareceria necessário reiterar o que já está implícito no texto, isto é, que a palavra “ cordial” há de ser tomada, neste caso, em seu sentido exato e estritamente etimológico, se não tivesse sido contrariamente interpretada em obra recente de autoria do sr. Cassiano Ricardo onde se fala no homem cordial dos aperitivos e das “ cordiais saudações” , “ que são fechos de cartas tanto amáveis como agressivas” , e se antepõe à cordialidade assim entendida o “ capital sentimento” dos brasileiros, que será a bondade e até mesmo certa “ técnica da bondade”, “ uma bondade mais envolvente, mais política, mais assimiladora”, para melhor frisar a diferença, em verdade fundamental, entre as idéias sustentadas na referida obra e as sugestões que propõe o presente trabalho, cabe dizer que, pela expressão “ cordialidade” , se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas a que parece inclinar-se o sr. Cassiano Ricardo, quando prefere falar em “ bondade” ou em “ homem bom” .
Cumpre ainda acrescentar que essa cordialidade, estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado. Pertencem, efetivamente, para recorrer a termo consagrado pela moderna sociologia, ao domínio dos “ grupos primários”, cuja unidade, segundo observa o próprio elaborador do conceito, “ não é somente de harmonia e amor” . A amizade, desde que abandona o âmbito circunscrito pelos sentimentos privados ou íntimos, passa a ser, quando muito, benevolência, posto que a imprecisão vocabular admita maior extensão do conceito. Assim como a inimizade, sendo pública ou política, não cordial, se chamará mais precisamente hostilidade. A distinção entre inimizade e hostilidade, formulou-a de modo claro Carl Schmitt recorrendo ao léxico latino: “Hostis is est cum quopublice bellum habemus [...] in quo ab inimico differt, qui est is, quocum habemus privata odia...”. Carl Schmitt, Der Begriff des Politischen (Hamburgo, s. d. [1933]), p. 11, n.”

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O SALGUEIRO


Pequena crônica que estava inacabada.

O SALGUEIRO

Uma corrente de ar entrou pela janela entreaberta da varanda do quarto, trazendo com ela o frêmito das folhas do salgueiro-chorão que ornava o jardim. Era um vento frio para uma tarde de Outono, talvez o prenúncio de um Inverno rigoroso naquele ano. Apoiando-se na balaustrada da varanda, Isadora entregou-se à lufada de ar. Inclinando a cabeça, fechou os olhos e inspirou profundamente. O vento frio causou-lhe um leve rubor na face, um sopro de vida acentuado pelo contraste com a pele branca, quase lívida, de quem há muito não se expunha ao sol. Ao reabrir os olhos, a face rubra já havia desaparecido, devolvendo-lhe a habitual expressão de tristeza. A luminosidade tênue do entardecer penetrava a folhagem espessa do velho salgueiro, projetando na janela da varanda os contornos dos galhos que naturalmente pendiam em direção ao solo, justificando a imagem de que a árvore parecia, de fato, chorar. Isadora fitou-a por algum tempo, perscrutando as razões pelas quais uma planta tão frondosa emulava uma melancolia que se transformara numa alcunha e a nominava pela aparência. “Uma árvore não tem consciência da sua finitude”, pensou, “e suas perdas limitam-se às folhas caídas no Outono e recuperadas na Primavera”. De algum modo, Isadora estava convencida de que todas as suas dores pareciam pesar sobre cada um dos galhos daquela árvore, fazendo-os ceder até tocarem o chão. A tristeza do salgueiro era o resultado das suas próprias projeções. A diferença estava no fato de que, ao contrário do salgueiro, ela dificilmente vertia uma lágrima. Por maiores que fossem as suas perdas – e elas eram muitas e dolorosas –, decidira que a tristeza não cairia dos seus olhos. O salgueiro choraria por ela.

Quando se tratava de expressar suas emoções, Isadora sempre fora econômica. Talvez por isso ela tivesse tanta dificuldade em lidar com as lembranças, em especial as mais dolorosas. Não sabia como expressá-las. Até então, sua existência não havia sido outra coisa senão uma sucessão infindável de lembranças ruins. Quem não a conhecesse, certamente faria um julgamento equivocado sobre a sua vida. Sua rápida ascensão profissional custou-lhe um alto preço pessoal. E disso as pessoas não sabiam, ou não tinham o mínimo interesse em saber. Apenas os sinais exteriores do sucesso interessam ao mundo. Para ela, porém, o caminho havia sido muito mais longo do que aparentava.

Retornando ao quarto, Isadora voltou a folhear o velho álbum de fotos que deixara aberto sobre a cama. Álbuns de fotografias são coisa rara nestes tempos em que todas as memórias estão online. Mas o prazer de reconstruir o passado a partir desses fragmentos do presente, capturados e imobilizados num pedaço de papel, só se pode sentir folheando-se os álbuns de fotos. Parece existir uma relação oculta entre o tempo e as imagens impressas. O presente condensado nas fotos deixa ao encargo das franjas da memória o trabalho de tecer as costuras entre as imagens. E essas ligações nunca são as mesmas. Cada vez que se abre um álbum de fotografia, o passado mudou, e o álbum, também.

Isadora deteve-se numa foto. Era uma imagem sua aos 10 anos. Havia algo diferente naquele olhar. Não era súplica, raiva ou medo, mas um vazio. Um imenso e desconcertante vazio. Quando se deparou com aquela imagem pela primeira vez, um sentimento desconhecido e, talvez por isso, incômodo, assomou-lhe. O mesmo sentimento continuava a preencher sua alma todas as vezes que olhava aquela foto. Os olhos negros daquela criança não tinham brilho. Não tinham vida. “Eu não fui assim”, pensou. “Eu não sou assim”. Mas o tempo parecia ter-se congelado em seus olhos. Ou talvez fossem seus olhos que haviam capturado e congelado a passagem do tempo. Uma temporalidade diferente daquela a que as pessoas estão acostumadas. Um tempo interior, como se a alma fosse um artefato resiliente às mudanças que a vida impõe e, a despeito delas, conservasse suas feições originais. Por mais que Isadora se recusasse a aceitar a verdade, aquela foto era a imagem mais fiel do vazio que sempre a preencheu. "Mas esse vazio não a consumiria. Não mais!”

A penumbra do início da noite começava a incidir sobre o quarto, acentuando os tons negros das fotos em preto e branco. Isadora ergueu-se, postando-se diante do espelho. Levantou a blusa e, na semiescuridão, acariciou o ventre. Nenhuma alteração podia ser vista, ainda. Mas ela sentia e sabia que algo estava mudando. Uma mudança inesperada. Tão inesperada quanto inexorável. E não havia uma explicação racional. As mulheres apenas sabem quando uma nova vida se forma dentro delas. Isadora levantou um pouco mais a blusa e tocou os seios. Também não havia mudanças visíveis e os seios não estavam intumescidos. Mas ela tinha certeza de que em breve todo o seu corpo se alteraria para preparar e conceber o novo ser. Fechando os olhos, tentou não pensar nas consequências da decisão que tomara. Uma nova corrente de ar entrou pela janela da varanda e o vento frio enrijeceu-lhe os mamilos, fazendo-a baixar a blusa num gesto instintivo de pudor maternal. O frêmito das folhas do salgueiro parecia chamá-la. Atendendo ao chamado, Isadora retornou à varanda.

Não havia lua visível no céu. O balançar das folhas denunciava a presença do salgueiro-chorão que se escondia sob o manto da noite sem estrelas. Isadora não tinha ideia de quanto tempo permanecera à frente do espelho. Voltando-se na direção do salgueiro, passou a escutar o sussurro das folhas. A árvore parecia aquiescer à decisão que ela tomara. O vazio de sua alma havia aumentado. Uma dor profunda tomou-lhe peito e, pela primeira vez em muitos anos, Isadora sentiu uma imensa vontade de chorar. Embora houvesse decidido que o salgueiro choraria por ela, aquela era uma dor que apenas ela poderia suportar. Por um segundo o vento parou, como se o mundo suspendesse a respiração para aguardar as lágrimas frias que escorriam pela face de Isadora. Ela tomara sua decisão e ninguém poderia censurá-la por isso. Envoltos pela escuridão, os galhos do salgueiro-chorão vergaram-se um pouco mais em direção ao solo, como se um peso maior lhes houvesse sido adicionado. Estranhamente, contudo, a árvore não mais parecia chorar...

Fernando Amorim

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Carta ao Presidente do Fluminense



Prezado Presidente Peter Siemsen.
Sou tricolor desde sempre. Estou convicto disso. Mas as minhas lembranças de infância revelam que sou tricolor ao menos desde os 10 anos de idade, quando acompanhei pelo rádio o título carioca do Fluminense, em  1980. Vencemos o Vasco com um gol de falta de Edinho. Aquele gol marcou a minha infância de torcedor. A infância de um menino que vivia no interior do Nordeste e torcia por um clube do Rio de Janeiro. Coisas do colonialismo cultural e do provincianismo brasileiro!

O Fluminense, Presidente, nasceu como um clube de elite. Não há mal algum nisso. Muitos clubes de futebol no Brasil também nasceram para representar as camadas mais abastadas da população. Felizmente, a popularização do futebol fez com que hoje tenhamos torcedores em todos os extratos sociais. Mas o que sempre nos distinguiu e nos conferiu uma identidade, fôssemos ricos, pobres ou remediados, era o fato de que, se havia algum sentido em sermos representantes de uma aristocracia, esse sentido só se poderia traduzir na expressão máxima de valores como honra, moral, decência, fidalguia. Não éramos os detentores exclusivos desses valores, mas sempre nos vangloriamos de sermos um clube que “fascina pela sua disciplina”, como diz o mais belo dos hinos dos clubes de futebol. Lamento reconhecer, Presidente, hoje não mais é assim.

O recente episódio do rebaixamento da Portuguesa e a manutenção do Fluminense na série A do campeonato brasileiro nos tornaram, a nós tricolores, mais uma vez, os alvos de um achincalhe moral. E nós demos causa a isso. As críticas que nos são endereçadas por parte da imprensa e por muitos torcedores de outros clubes equivocam-se na distinção entre legalidade e moralidade. Mas há um fundo de verdade em todas elas. O Fluminense fechou os olhos para uma dimensão da moralidade que não se manifesta apenas nas leis e regulamentos, pois está além do que dizem os textos legais. Não devemos ser condenados porque efetuamos uma virada de mesa. Não por isso. Do ponto de vista estritamente legal, a Portuguesa deu causa à sua punição e o STJD, talvez com excessivo rigor, aplicou o regulamento. Dura lex sed lex!  Mas nós perdemos a nossa vaga no campo. A escalação irregular do atleta da Portuguesa não interferiu, no campo de jogo, no resultado final do campeonato. O Fluminense foi vítima dos seus próprios erros. Erramos nas contratações de jogadores e técnicos. Erramos no planejamento e nas escalações. Pecamos pela soberba e, por isso, somos hoje um clube de uma cooperativa de médicos (com todo o respeito aos médicos).

O Senhor, Presidente, ainda tentou minimizar os estragos, declarando que o Fluminense nada tinha a ver com os problemas da Portuguesa e do Flamengo. Mas por que razão nós enviamos um advogado para o STJD? Por que razão, de forma patética, efetuamos a defesa de um clube que, ao menos pelas declarações do seu Presidente, não queria se apresentar como terceiro interessado? Sei que as pressões econômicas são muitas e que há muitos interesses em jogo. Mas tais interesses se sobrepuseram aos valores morais que sempre foram cultivados pelos verdadeiros tricolores. Lembro-me de uma antiga entrevista do Presidente Horta, na qual ele dizia do prazer que teria em assistir a um Fla-Flu, nas tribunas de honra de um Maracanã lotado, e, qualquer que fosse o resultado do jogo, poder apertar a mão do Presidente do Flamengo, como fazem os bons contendores. Adversários, sempre; inimigos, jamais! Essa era a fidalguia que alimentava a paixão pelas cores verde, branca e grená do Fluminense. Essa postura, infelizmente, parece fazer parte da história.

Mas ainda podemos corrigir isso, Presidente. Sei que o Senhor é uma pessoa íntegra e bem intencionada. Falta-lhe apenas a coragem de dar um exemplo a todos os tricolores e a todos os brasileiros. Cedamos a vaga na série A em 2014, que não conquistamos no campo, ao quinto colocado da série B em 2013 ou à própria Portuguesa. A CBF e o STJD que decidam. A torcida do Fluminense, Presidente, acompanhará o clube em qualquer divisão. Seguiremos o exemplo do Santa Cruz, que com dignidade está sendo levado por sua torcida da série D até a série A, para onde certamente retornará. Disputaremos a segunda divisão com um time de garotos formados na base. Talvez não retornemos à série A de imediato, mas teremos a nossa dignidade e a nossa honra de volta. Sei que uma decisão dessa natureza irá lhe custar o cargo. Sei que uma decisão dessa natureza poderá afundar o clube que o Senhor tanto ama. Mas o Senhor deve fazer isso porque tem o dever de fazê-lo. Só por isso. Como diria Kant, o valor moral de uma ação não está nas suas consequências, mas no fato de que a realizamos por ser a coisa certa a fazer.

Saudações tricolores.

Fernando Sérgio T. de Amorim