"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MMA/UFC: DA TERRA NASCEM OS HOMENS?




            Inicio com um esclarecimento. Nada tenho contra o MMA ou qualquer outro  tipo de luta. Ao contrário, sempre fui um fã de esportes e quem me conhece um pouco mais de perto sabe que acompanho várias modalidades com um interesse que vai além da mera curiosidade. Dentre essas modalidades, o boxe é uma de minhas favoritas. ­ A “nobre arte” de Sugar Ray Leonard, Cassius Clay e Eder Jofre, para citar alguns boxeadores mais antigos, ou Manny Pacquiao, dentre os mais recentes, desperta em mim um fascínio e um respeito semelhantes aos que nutro por outras modalidades esportivas mais populares, como o futebol, o vôlei e o basquete. Como sou espectador apaixonado por esportes, assisto a todo tipo de competições e modalidades, do futebol americano (torço pelos Redskins, de Washington) ao rugby (França e Nova Zelândia são minhas seleções favoritas), do curling (o xadrez do gelo) ao esqui alpino, do nado sincronizado às corridas da FIA GT. Não consigo, contudo, assistir às lutas de MMA.
            Repito. Nada tenho contra quem gosta desse tipo de luta e muito menos  contra aqueles que são adeptos da modalidade. Como para mim a liberdade individual é um valor em si mesmo, se duas pessoas pretendem se estapear e esmurrar em um ringue, com farto derramamento de sangue, isso é problema delas e ninguém tem o direito condenar essa conduta. No entanto, os fundamentos morais da prática desportiva devem incidir sobre todas as modalidades, e não seria diferente com o MMA. Existe uma moralidade no esporte que não se resume à ideia, a meu ver equivocada, de fair-play ou jogo limpo. E não me refiro apenas à prática desportiva de final de semana, mas sobretudo ao esporte competitivo de alto rendimento.
            A essência do esporte é, obviamente, a superação dos limites físicos do ser humano. Descobrir quem corre ou nada mais rápido, quem salta mais longe ou mais alto, quem tem maior controle sobre os músculos, é o mais forte ou consegue dominar os nervos quando submetido a situações extremas sempre foi uma preocupação da sociedades humanas. Além disso, do ponto de vista antropológico, os jogos e as atividades físicas têm um caráter lúdico, constituindo uma forma de simulação da guerra e sublimação das relações de força e de poder entre pessoas e grupos sociais distintos. Para que isso ocorra, tais atividades precisam ter regras. E uma das regras básicas da maioria dos desportos, sejam eles individuais ou coletivos, é não ferir o oponente além do tolerável e não colocar em risco a sua integridade física. Isso não que dizer que tais atividades não possibilitem o contato ou mesmo o choque físico entre os participantes. Mas existe um limite, uma linha de conduta que, uma vez ultrapassada, pode transformar um contato físico mais ríspido em agressão ou lesão corporal.
Na esgrima, por exemplo, o corpo e o rosto do esgrimista são protegidos contra a ação do florete, da espada ou do sabre. Proteção semelhante é adotada no kendo, a luta japonesa com espadas de bambu ou madeira. No futebol, uma falta mais dura, considerada pelo árbitro como antidesportiva,  é punida com a cartão vermelho e a exclusão do infrator do campo de jogo. No basquete, o contato físico é permitido desde que o objetivo seja retirar a bola do adversário, mas as regras protegem o atleta que tem a posse da bola. No futebol americano, por muitos tido como um esporte violento, o tackle, a ação de interceptar e derrubar o adversário, não admite que a interceptação seja feita agarrando-se o oponente pelas pernas ou pelo capacete. Já no rugby, o tackle alto, feito acima da linha dos ombros atleta, é considerado jogo perigoso que pode gerar a expulsão do infrator em caso de reincidência. O hóquei sobre o gelo constitui uma exceção, pois as brigas são comuns e toleradas pelos juízes, que demoram para separar dois atletas que estejam se agredindo. No entanto,  mesmo no hóquei, depois  que um jogador da equipe do Boston Bruins fraturou três vértebras, a tolerância com a violência vem sendo questionada.
Nas lutas não é diferente. No judô, a “catada” não pode ser feita diretamente na perna do oponente, regra essa que custou uma medalha olímpica para a judoca brasileira Rafaela Silva. O caratê  prega o controle da agressividade e sua versão de combate, o kumite, foi proibida no início. Atualmente, as competições de caratê dividem-se em kumite e kata, este último uma bela simulação dos movimentos da luta, na qual não há o contato físico. O boxe não permite golpes abaixo da linha da cintura e as luvas de certa forma preservam o rosto dos boxeadores de lesões mais graves. Ainda assim, no boxe profissional, não raro ocorrem mortes em decorrência das lesões cerebrais sofridas pelos lutadores, como consequência dos golpes recebidos na cabeça. No boxe olímpico, os atletas são ao menos obrigados a usar o protetor de cabeça e as lutas duram apenas três rounds.
O MMA também tem suas regras. São proibidos a cabeçada, dedo no olho, morder, puxar cabelo, beliscar, arranhar e cuspir no adversário. É proibido ainda atacar a região genital ou o rim do adversário com o calcanhar, enfiar o dedo em qualquer orifício, corte ou laceração e manipular as articulações pequenas do oponente. Também não são permitidos os ataques à coluna ou parte de trás da cabeça, golpear de cima para baixo usando a ponta do cotovelo, qualquer tipo de ataque à garganta, agarrar a clavícula e chutar ou atingir com o joelho a cabeça do adversário que está no chão. No entanto, não há regra que proíba um atleta de quebrar a perna ou o braço do seu oponente com um golpe desferido.
É preciso deixar claro. Não se trata de um acidente que poderia ocorrer em qualquer esporte no qual há contato físico entre os participantes. Lesões assim podem acontecer. No MMA, contudo, não há regra que impeça um atleta de tentar fraturar deliberadamente uma parte do corpo do seu adversário. Ao contrário, tais ações parecem fazer parte da própria natureza do combate. Assim como no boxe, quanto mais forte for o golpe, maior será a chance de nocautear o oponente ou “finalizá-lo”. A diferença é que no boxe não são permitidos chutes e os boxeadores usam luvas.  No MMA perde-se o caráter lúdico da luta, da simulação da guerra, diluindo-se numa mera demonstração de violência física o espírito que deve nortear as competições esportivas. Pode ser considerada esporte uma atividade que tem como objetivo machucar e ferir fisicamente o adversário, pondo-o fora de combate?   Apenas para fazer um contraponto. Uma luta que pode ser mortal como a capoeira, por exemplo,  tornou-se, por questões culturais, um jogo de atração e sedução entre os capoeiristas, um belo e ritmado balé de movimentos que se confunde com uma dança.
Há uma confusão que precisa ser dirimida. Os lutadores profissionais que vivem do MMA são, a princípio, pessoas bem intencionadas que vivem honestamente dos rendimentos da sua atividade. Muitos fazem um trabalho social importante em comunidades carentes, aproveitando a popularidade do MMA e do UFC  para resgatar crianças em situação de risco. Tudo isso é louvável e digno de crédito. Mas os combates em si são violentos. Uma violência consentida, é verdade, mas nem por isso deixará de ser uma violência.
Para finalizar. Há uma cena antológica no filme “Da terra nascem os homens”, um clássico do faroeste dirigido por William Wyler. Os personagens James McKay (Gregory Peck) e Steve Leech (Charlton Heston) decidem resolver suas diferenças numa briga. Fazem isso à noite, no meio do nada, sem testemunhas. Eles lutam e trocam socos por muito tempo sem que um consiga nocautear o outro. Apesar de exaustos, Mckay e Leech continuam a briga até se prostrarem ao solo, sem forças. Ambos concordam em por um fim no combate, pois não havia um vencedor. Mckay se levanta com dificuldade e, fitando Leech, indaga: “o que conseguimos com isso?”.    
                           

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

FAZENDO A COISA CERTA




Costumo usar o final de ano para fazer algumas leituras que normalmente não consigo efetuar ao longo do ano. Tenho o péssimo hábito de ler muitas obras ao mesmo tempo e fico sempre em débito com minhas leituras. Finais de ano são propícios para saldar essas dívidas. Deixo duas pequenas dicas. 

          Nenhuma formação jurídica estará completa se o profissional se limitar à sua área de especialização. Hoje em dia, interessam-me tanto ou mais as questões meta-jurídicas do que propriamente o estudo de temas do direito, em especial do direito internacional, minha área de atuação. Uma fenomenologia do direito e a relação entre direito, moral e justiça são temas importantes para que tenhamos uma apreciação mais ampla do fenômeno jurídico. O livro "Justiça: o que é fazer a coisa certa", do professor de Harvard Michael Sandel, é leitura leve e imensamente rica que nos faz tratar dos dilemas morais sob a ótica da filosofia utilitarista de Jeremy Bentham e Stuart Mill, ou ainda de filósofos como Rawls, Kant e Aristóteles. O livro é simples, de leitura fácil e pleno de exemplos do cotidiano. A obra é leitura obrigatória para qualquer pessoa que se interesse pelos dilemas morais do ser humano. A abordagem de Sandel não é fenomenológica, que fique bem claro, ao menos não declaradamente, mas a maneira como os conceitos de liberdade, bem-estar e virtude são analisados, desnudando-se a sua essência, lembra a epoché (suspensão dos juízos) fenomenológica de Husserl. Como recentemente ministrei um curso de pós-graduação sobre ética no mundo virtual, a obra de Sandel é particularmente significativa para aprofundar o tema.

O livro de Sandel fala muito de utilitarismo para refutar, do ponto de vista da filosofia política, essa corrente de pensamento. Mas um dos principais fundamentos da filosofia utilitarista é a ideia de que uma ação é moralmente aceitável se proporcionar a máxima felicidade para o maior número possível de pessoas. Tal afirmação despertou em mim o interesse e a curiosidade por desbravar um campo especialmente interessante,  a psicologia positiva, ela própria um ramo da psicologia humanista. Um livro em especial trata do tema: "Vivre. La psichologie du bonheur" ou "Flow. The psychology of optimal experience", do professor da Universidade de Chicago, o húngaro Mihaly Csikszentmihalyi (um prêmio para quem conseguir pronunciar o sobrenome dele!). "Viver. Uma psicologia da felicidade" seria a tradução do título em francês. Não se trata de obra de popularização da psicologia ou mesmo de auto-ajuda. O livro é uma das grandes obras da psicologia do século XX e ensina como podemos vivenciar a experiência subjetiva da felicidade a partir do fluxo (flow) das experiências optimais. Tais experiências são descritas como aqueles momentos nos quais sentimos um prazer intenso, o prazer de estarmos vivos. Essa passagem da filosofia moral para a psicologia, de uma perspectiva coletiva para o campo da subjetividade,  em duas obras tão distintas, torna ambas as leituras, elas próprias, uma experiência optimal! Fica a dica. Feliz 2014.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O DILIGENTE INEFICAZ



 Comportamento organizacional. Nem sempre ser diligente é ser eficaz. No ambiente corporativo, algumas pessoas consideram-se profundamente diligentes, muito mais diligentes do que o restante dos colegas de trabalho. O problema é que nem sempre ser diligente é ser eficaz. Os que se acham diligentes assumem um comportamento típico: estão sempre correndo de um lado para o outro, atarefados e estressados, nunca têm tempo, assumem funções de terceiros (ainda que não tenham sido solicitados a fazê-lo), são sempre críticos com relação ao trabalho dos outros e atribuem a não solução dos problemas à morosidade da empresa, à desídia e falta de comprometimento dos demais colegas. O problema é que tanto “esforço” e dedicação não são traduzidos em resultados práticos. Trata-se da falsa eficiência. E isso ocorre porque tanta atividade cria uma ilusão de eficácia, ao menos à primeira vista. Uma análise mais detalhada, no entanto, conduz à conclusão de que o “diligente ineficaz” está muito mais preocupado com o caminho do que com o destino. Para criar a falsa impressão de que está seguro em suas ações, esse profissional prioriza fluxos, organogramas, processos e procedimentos, confundido planejamento com burocratização. No entanto, o diligente ineficaz é incapaz de decidir, pois não tem aptidão para delegar funções e sempre desconfia do trabalho dos outros. Para usar uma metáfora futebolística,  o diligente ineficaz assemelha-se àquele jogador que corre todo o campo, o tempo todo, mas não sabe o que fazer com a bola quando está de frente para o gol. Ao final da partida, com o seu time derrotado, esse atleta está extenuado. Sua correria pouco contribuiu para o sucesso do time, mas ele não entende assim e, no silêncio do vestiário, procura o técnico para reclamar e culpar os colegas de equipe.