"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 27 de outubro de 2012

CREDULIDADE



Assisti hoje a alguns vídeos motivacionais no you tube. Fi-lo apenas por curiosidade, mas é impressionante como as pessoas se deixam convencer por um festival de platitudes, lugares comuns e obviedades. Algum mérito esses gurus da autoajuda devem ter, pois seus livros e apresentações arrastam um séquito de leitores e ouvintes com boa formação educacional e intelectual. Pessoas e empresas pagam para ouvir desses indivíduos o que todo mundo já sabe: um festival de frases de efeito e petições de princípio de conteúdo tão simplório que não se sustentam diante da mais simples análise lógica.
O problema é que as mentes mais vigilantes e menos incautas têm vergonha de divulgar tais obviedades, abrindo espaço para os aproveitadores e suas falácias desprovidas de qualquer sentido. Como não estão baseadas em nenhum conhecimento sistematizado (queria dizer científico), as frases de efeito ditas por esses indivíduos estão amparadas ora no senso comum (deturpando-o) ora na experiência de vida do palestrante. Tem-se, assim, a chamada “falácia do sobrevivente”, pois, metaforicamente falando, os mortos não retornam para nos relatar os seus insucessos.
Em que medida, portanto, uma regra de conduta construída a partir da experiência individual pode, indutivamente, constituir uma generalização aceitável? A resposta retórica para essa pergunta é simples: se você não foi capaz de transformar sua vida ou sua empresa a partir das lições da autoajuda é porque ou não as entendeu (e ninguém quer admitir que o rei está nu!) ou não se esforçou o bastante. As ações desses indivíduos lembram-me a parábola “O Grande Inquisidor”, relatada por Dostoiévski no “Os Irmãos Karamázovi”. Talvez haja algo na psique humana que nos faça transferir para terceiros o direito de dizer e afirmar “verdades” óbvias acerca da nossa vida e de nossos destinos. Espanta-me o quão crédulos somos.
Não culpo quem gosta dessas receitas para o bem-viver. A maioria dos gurus da autoajuda é inofensiva. Alguns são até mesmo divertidos, pois as maiores atrocidades soam menos atrozes quando ditas com graça e leveza (frase de efeito!). Mas o problema torna-se grave quando tais obviedades recebem o verniz de pseudociência. Torna-se ainda pior quando as pessoas adotam essas bobagens como substitutivo da consciência individual e da reflexão crítica e profunda. Essa praga alastrou-se de uma maneira que chegou até mesmo à academia. Não raro me deparo com gurus da autoajuda jurídica enganando os estudantes desavisados. Para que servem os autores clássicos e seus livros volumosos se podemos nos contentar com uma literatura de terceira linhagem, com frases simples e letras garrafais? Para que servem Proust, Dostoiévski, Nietzsche, Heidegger, Freud, Jung se temos Paulos, Robertos, Rubens e Eduardos para nos explicar como funcionam o mundo e a alma humana?