"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 18 de dezembro de 2010

NATIVIDADE

Em 2004, escrevi o texto abaixo, que foi  publicado em duas páginas na Gazeta de Alagoas. Decidi republicá-lo no blog. Embora tenha, hoje, restrições quanto ao estilo que imprimi ao texto, creio que sua leitura provoca reflexões. Finalizo com um video da mais pungente música que conheço: Pavane pour une infante défunte, de Ravel.

Giovanni Battista Tiepolo: Natividade
NATIVIDADE
(Fernando Amorim, 2004)
"Estava ela prenha. Sabia-o havia sete meses, quando nela se manifestaram os sinais do seu estado. Viva ou morta alma não lhe dissera. Sabia-o, apenas. E assim era daquela vez. E assim fora das outras vezes. Duas mãos, achava. Sim, porque das letras pouco tivera o que aprender, o insuficiente para evitar que lhe obrigassem a manchar os dedos de quando em vez. Dos números, aprendera a contar ainda nova, pois criança nunca fora ou, se o fora, talvez não o soubesse ter sido. Menos mal. Mais sorte houvera de ter do que aqueles dela saídos. Duas mãos. Dois dedos arrancados pela graça divina, e, pela vontade do homem, mais um. Este, quisera a misericórdia celeste que não sofresse e, para não tê-lo, fez-se expelir do ventre o fruto não vingado, pois de misericórdia entendia-o deus, porém não o entendia a vontade do homem, que de divina nada tinha, exceto quando confundida com os superiores desígnios e, traçando por tortas linhas o caminho reto no além escrito, ao anjo impedira de por aqui vir sofrer, chutando-o quando ainda nas entranhas da mulher. Quanto aos demais, apenas retinha na consciência os que aos seus olhos se faziam ver, acompanhando-a, e esses eram em número de três. O resto o mundo ganhara. Se vivos estavam era mistério, mortos, sobre eles não derramara suas lágrimas. E saibam que de mãe lágrimas há para todos os filhos, fonte esta que não seca, ainda que árida esteja a alma.
Trinta e um anos contava então. Quando os completava sua mãe nunca o dissera. Acreditava ser em junho, mês de chuva, quisera-o, até. Sabia apenas que no final dos tempos teria a idade do Cristo, se se pudesse imaginar que o filho do homem com outro sexo houvesse nascido, conta feita por seu pai que apenas isso lhe deixara como herança, os anos. Não lhe renderia milagres esta divina coincidência. O tempo cavara-lhe sulcos na face. A palha seca cortara-lhe o rosto, os membros, e das mãos retiraram a possibilidade do afago, como se a estas gentes fosse dado sonhar com afagos ou o que quer que com eles tivesse semelhança. Do final dos tempos, somente ouvira falar da boca de seu pai, que não era homem afeito às palavras, mas versado nas coisas de deus e do juízo repetira o escutado da voz dos que por Ele intercedem aqui na terra. Estava próximo o dia do juízo. Sabia-o com a mesma certeza de que carregava no ventre um fruto desta vez vingado, pois a semente do homem nela ainda encontrava solo fértil, assim como lhe haviam fecundado a alma as palavras dos intercessores. Também ela fora emprenhada pelo divino verbo e deste ato bem tinha alguma consciência, contudo não a tinha nenhuma do outro, ato do mundo que, por do mundo ser, não o seria menos belo quando naturalmente feito. Todavia,  de natural nada acontece a essas gentes e a violência da cheia faz arrastar as sementes que noutro solo deveriam germinar, mesmo que a terra não as quisesse receber mas,  recebendo-as, delas não lhe fosse permitido a rejeição.
E ali ela estava, o tempo na face, a violência no ventre, a aridez na alma. Meios de tudo isso entender não os tinha. De idêntica forma, sentia-o, apenas. Coisas há que não se explicam, de tão ligeiras, passam, e, por passarem, demoram átimos, ainda que um átimo dure uma vida. Disto era feita a sua, um encarceramento no presente. Poupa frustrações a providência aos que da vida tiveram retirada a matéria onírica, alimentada no devir. Presente era, no presente ela estava e não havia como lhe escapar das amarras. Dessa constatação, se pensada ou sentida não se sabe, expelira um som, um lamento, reverberado nos rebentos que a seguiam e por eles em eco transformado. Em três eram e em três estavam. Tinha o maior pouco mais que uma mão de anos. Os outros seguiam-no em escala decrescente na idade, porém pouco se lhes via a dessemelhança, porque se do sofrimento existem dores em grau muito distantes, aos seus efeitos a todos responde o corpo com igual magnitude e o que dantes era diverso, pela dor fisicamente se transforma e, transformando-se, à alteridade faz tornar similitude.
Para os três ela olhara e os três lhe devolveram o olhar. Ação suficiente para que entre eles eclodisse um rasgo de entendimento. Dos filhos tudo sabem as mães,  que de únicas entranhas se trata, mas os seus, embora a uterina intimidade com ela houvessem dividido, não mais exigiam do que um simples fitar de olhos, e assim  desvendadas estavam-lhes todas as vontades, conquanto seja de justiça afirmar que solitária vontade então enxergara a materna adivinhação. Três almas e um único desejo. Difícil não seria para os não versados nas artes divinatórias descobrir o revelado no olhar daquela tríade de comum anseio. Estranhos caprichos tem a alma, se à matéria unida está, dela ameaça desprender-se tão logo lhe falte o material sustento. Assim estava prestes a ocorrer àqueles pequeninos corpos, de cujos irmãos já se houveram as caprichosas almas desprendido da matéria por motivo e razão idênticos. A um só indivíduo mãos e pés não bastariam para contar-lhes as horas de falta.  Mas, como já dito, em três eles eram e no infortúnio haveriam de se emprestar as mãos para que, se contar soubessem, fosse-lhes facilitada a tarefa.
Que desculpas daria a alma ao corpo sem alimento? Para essa pergunta não possuía resposta o maternal instinto. À tríplice súplica do filial olhar respondera a mãe apenas com o entendimento do significado e a certeza da impossibilidade do lenitivo, pois, ela sim, contar sabia, estando na iminência de transformar em quadra o que antes era trino, soma essa que na aritmética divina onze já atingira. Do olhar de sua prole sentira os reflexos naquele que em seu ventre estava a habitar e esse, porque olhos ao mundo ainda não podia mostrar, com o exterior se comunicava fazendo dela a sua fome. Se cá estivesse, assim como os outros, de fome também choraria, o que não quer dizer que dentro dela não se pusesse a chorar, gotas essas que ela, a mãe, fazendo suas as lágrimas do filho no ventre derramadas, jamais permitiria fossem por seus maternos olhos vertidas, pois sabia que deveria economizá-las e ambos delas necessitariam quando aquele por estas paragens viesse sofrer. 
Habitam o mundo almas benevolentes que da dor alheia ainda se condoem, seja por na consciência carregarem o fardo dos pecados cometidos e dos que estão por cometer, seja porque na caridade têm profissão. Todas, cada uma a seu modo, se bem não fazem, mal também não hão de fazer, exceto a si mesmas, mas destes danos só terão ciência quando suas contas com deus forem quitar. Uma dessas almas, condoída do infortúnio alheio, à fome deu ouvidos, presenteando a ela e a sua prole com os dons de Ceres preparados. E tão divinos dons, simbolizados no pão que ao filho do homem coube multiplicar em atenção aos caprichos da vontade paterna, a ela competia fazer dividir, porque dos números os múltiplos não conhecia. Verdade é que Ceres, deusa da vegetação, a todos os homens ensinou a arar a terra, e isso ela sabia, não de Ceres, que seria pedir muito, mas das artes de com a terra trabalhar. Igual mister também o souberam seus pais e os pais de seus pais, estes e aqueles,  assim como ela, hábeis no oficio que lhes destinara o criador e por isso versados no amanho, na aradura, no replantio e na sachadura, contudo privados da primordial matéria, a terra, como lhes fora determinado pela humana vontade.
  Em quatro pedaços fora dividido o pão. Banquete não era, e deus a perdoasse os bons e os maus pensamentos. Os primeiros a abençoarem a dádiva recebida, os segundos a praguejarem contra os que se negaram a ofertá-la. Servira a mãe aos seus filhos, e a si própria o fizera apenas para nutrir àquele que na sua intimidade recebia o alimento pois, ao contrário, se o útero tivesse vazio como vazio tinha o estômago, pensar duas vezes não pensaria, e, repetindo o milagre que à unidade transformara em trindade, embora milagreira não fosse, do naco de pão a ela destinado faria três, ofertando-os à prole já nascida. No entanto, não podia exercer tão altruísta renúncia, tendo que se contentar com o que antes ficara estabelecido. Comeram, pois não estavam alimentados, e das almas, caridosas ou não, que na rua a cena presenciavam, não deixaram de ouvir os juízos de reprovação, não a eles dirigidos, é claro, que não perdem tempo as pessoas a falarem com estas gentes, mas entre  elas discutidos. Os que sozinhos passavam, por não terem com quem comentar tais coisas, consigo guardavam os pensamentos para dizê-los mais tarde. "Trabalhar não querem, porque as mãos não pretendem calejar, mas para procriar vontade não lhes falta". E assim seguiam, pensando ou dizendo-se.
O menor dos filhos tenha-o a mãe sempre consigo, ou, se não o tiver, que o empreste ou alugue, porque às almas caridosas não é suficiente a solitária miséria para justificar a esmola e tudo aquilo que ao coração sensibiliza necessita de força e apelos redobrados para que da sensibilidade aufira dividendos. Conhecia ela essas regras da boa mendicância, um saber empírico testado e aperfeiçoado na vida das ruas. Do ponto onde esmolava saía apenas duas vezes por semana, quando então frequentava os cultos de sua igreja e ouvia as palavras dos que por ela estavam a interceder junto ao criador. Duas léguas entre idas e vindas caminhava. Uma atitude não muito inteligente diriam alguns, considerando-se que o caminhar do corpo exige e a fome agrava; saudável atividade, diriam outros, com o que há de se forçosamente concordar, especialmente se não falta o alimento para repor as energias despendidas.  Mas nas coisas da crença pouco espaço existe para entendimentos, e os raciocínios foram feitos para cérebros bem alimentados. Íntima relação parece ocorrer entre a fé e as provações, aumentem-se estas e à primeira ver-se-á acrescentada em igual quinhão. Portanto, tinha-a para dar e vender, a fé, nos tempos de hoje produto de muita oferta e pouca demanda.  
Ameaçava chover. Disso ela não tinha medo. O céu sombrio é sinal de vida. Trovoada no verão, chuva fina, contínua, intercalada por pequenos períodos de estiagem, no inverno. Benção para terra e para os que dela são donos. Essas, no entanto, não eram as razões do seu destemor. Muitos são os medos de quem trabalha na lide da cana, um, contudo, é eliminado tão logo sejam o menino-homem ou a menina-moça lançados no cativeiro dos canaviais: deixam de temer essas gentes as águas caídas do céu, ao contrário daqueles que nas cidades habitam e, trabalhando ou não, nas intempéries cuidam de abrigar os corpos. Chuva ou sol pouca monta têm para o labor diário do cativeiro e esse, por sua vez, rejeitando a insistência da chuva no inverno, não permite lhe sejam intercalados períodos de estiagem para que homens e mulheres, meninos e meninas, sequem o suor do corpo exalado. Se é certo que em matéria de dádivas meteorológicas nem sempre a divina vontade é feita de equilíbrios, mandando chuva de mais para onde água existe em abundância e chuva de menos para onde o sol faz rachar o leito dos rios, justiça seja feita. Às vezes acerta a mão o criador, fazendo alternar o estio e o gotejo e assim poupando a terra dos danos que um ou outro, em demasia, poderia acarretar. Tal não acontece com a maioria dos homens, a quem não são dados intervalos e intercalações para enxugarem o suor ou abrigarem-se da chuva. Vontades humanas, diga-se, e entre estas e aquelas que no céu têm origem grandes distâncias se contam.
A chuva caía, fina, dando contornos tristes à hora da ave-maria. Era dia de sair em busca do alimento para alma, pois o do corpo não o tinha para o dia seguinte. Porém, ela que milagres procurava, embora outros, humanos, daquela vez conheceria novamente o milagre de deus, para as mulheres em castigo transformado graças à original desobediência. Iniciara a caminhada sem levar consigo o menor dos filhos, contrariando o que sempre fizera. Aquele, assim como os dois outros, estava a andar pelo mundo, tentando ganhar para si as esmolas suplicadas, agradecendo-as quando concedidas ou, quando negadas, dispondo-se a tomá-las de qualquer modo, bastando para isso que mais idade viesse a ter. Trevas eram por aquelas veredas quando sentira as primeiras pontadas no ventre. Completava-se o ciclo. Sabia-o desta feita pela dor, que não era exclusividade sua, mas de todas as mulheres incumbidas de a espécie humana fazer perpétua. Concebera com dor e daria à luz também com dor. Por quê às fêmeas fora determinado parir com sofrimento? Os que a ela iriam acudir não sabiam a resposta, e, mesmo que a soubessem, pouca atenção dariam à pergunta, talvez porque machos fossem todos ou porque mais preocupados estivessem em fazer vir ao mundo aquele que no ventre não mais pretendia habitar e pela dor anunciava a sua vinda.
"Nascerá", diziam os que se achegavam daquela mulher que começava a expelir das entranhas o fruto da violência. Verbo empregado no correto tempo. Nascimentos são assunto de sintaxe delicada e exigem especial atenção dos que ousam relatá-los, às ações, estados ou fenômenos conjugando-se sempre no futuro,  porque de inícios se está a falar e tudo aquilo que inicia, passado não tem e, presente que é, traz o devir em gestação. Tais concordâncias não as reclama a norma culta,  impõe-nas, contudo, a terrena existência, e com essa há que se concordar, sempre, gramática que não admite desrespeito aos seus padrões. 
Chegará ela aos baldios situados a meio caminho do seu destino quando em seu ventre far-se-ão sentir a primeiras pontadas do nascituro e então estará completado o ciclo. “Nascerá”, dirão os que dela irão se achegar, e disso saberão porque o líquido verão escorrer-lhe pelas coxas, a princípio tênue fio, rio novo que escapa da nascente e aos poucos vai formando leito, caudal já tomado quando no oceano desaguar. Três homens. Se lhes perguntassem os nomes, dir-se-iam Josés.  Firmino, João e Francisco a diferençar-lhes as pessoas, ali reunidas por idêntico destino. Nada poderão fazer, embora algo quisessem ter feito. Se do divino verbo fez-se a vida, eis a humana contribuição, "nascerá", e do verbo dos homens far-se-á a vida, expelindo-se dos aconchegos maternos a causa de toda a dor.
  Aquele do ventre nascido será mulher. A mãe toma-la-á no colo, envolvê-la-á nos braços e nela não verá os sinais da violência. De fato, demora a vida um átimo. E o maternal olhar não adivinhará na filha futuro algum. A estas gentes desnecessário é narrar-lhes os nascimentos no futuro. Não existem futuros. Choverá ainda por algum tempo, uma chuva fina, contínua. Correrão os homens a se abrigarem, levando com eles mãe e filha. Pouco importa. Não temerá a mãe a água que lhe escorrerá pela face e com lágrimas irá se confundir. Olhará para a filha ainda uma vez. Firmino, João e Francisco não perceberão esse olhar, absortos estarão em desejar o estio. Sequer notarão que a mãe o rosto da menina fará chegar ao peito, sufocando-a. Dura a vida um átimo. Se da filha lhe indagassem o nome, di-la-ia Maria. E assim teriam sido, ambas."