"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

TIA ANASTÁCIA E TINTIN



Não tenho muito tempo para escrever esta postagem. Faço-o, contudo, para tornar pública a minha indignação. Uma alma iluminada do Conselho Nacional de Educação decidiu efetuar uma revisão das obras de literatura infantil adotadas pelas escolas brasileiras. Após uma “denúncia” efetuada por um mestrando da Universidade de Brasília – UNB, cujo nome prefiro omitir para não lhe dar mais notoriedade (ao menos entre os poucos leitores do meu blog), foi elaborado o Parecer CNE/CEB n°.15/2010 com “orientações para que a Secretaria de Educação do Distrito Federal se abstenha de utilizar material que não se coadune com as políticas públicas para uma educação antirracista”. O dito parecer ainda depende de aprovação do CNE, mas é uma prova de como a educação brasileira vem sendo conduzida nos últimos anos.

De acordo com a “denúncia”, o livro "As Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, é racista. O racismo estaria implícito no tratamento dado pelo autor – que também já foi acusado de nacionalista – à personagem Tia Anastácia. De acordo com o Parecer, “a crítica realizada pelo requerente foca de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas. Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos do livro analisado”. Vejam a que ponto chegamos.


Antes que me acusem de reacionário, racista ou coisa semelhante, quero deixar bem claro que abomino todo e qualquer tipo de discriminação de gênero, raça, orientação sexual ou ideológica. Mas não considero minimamente razoável o patrulhamento a que hoje são submetidas as obras literárias em nome do politicamente correto. Pergunto: em que contexto histórico Monteiro Lobato escreveu Caçadas de Pedrinho, Reinações de Narizinho, Estórias de Tia Anastácia? Qual a significância de tais obras no imaginário popular e, sobretudo, no imaginário infantil brasileiro? Será possível que, com o grau de acesso a informação que hoje as crianças e adolescentes possuem, não soará no mínimo estranho um menino munir-se de um bodoque (estilingue, peteca) para empreender uma caçada na mata? Não temos mais matas! Qual a criança que não recebe doses maciças de informação dos meios de comunicação e, por extensão, não sabe que as caçadas de Pedrinho, nos dias atuais, não mais seriam possíveis? Ao menos Pedrinho não poderia levar para o Sítio do Pica-Pau Amarelo um rinoceronte falante chamado Quindim... Estamos subestimando a inteligência de nossas crianças. Imaginar que as caçadas de Pedrinho não criam consciência ambiental nas crianças é um absurdo. 
Não vou e não quero, no momento, enfrentar a discussão sobre o racismo em obras de arte, especialmente em obras da literatura universal (sim, Monteiro Lobato é universal), mas escrevo com o objetivo de defender a minha memória afetiva literária. Tenho até hoje guardada na casa dos meus pais a coleção completa, em capa dura, de Monteiro Lobato. Lembro-me de não ter lido apenas o volume “Emília do País da Gramática e Aritmética da Emília”. Achava que esse volume, em razão dos títulos, era um livro escolar e, portanto, não merecia a minha atenção! Onde já se viu ler, nas férias, um livro que traz no título as palavras gramática e aritmética! 

A coleção fora comprada de um vendedor de enciclopédias (ainda existem vendedores de enciclopédias?) e passou por mim e por minhas duas irmãs. Todos nós lemos avidamente as obras e as conservamos em bom estado. Recentemente, ensaiei para a minha filha, de três anos, a leitura de Estórias de Tia Anastácia. Espero ansioso o dia em que ela, que ainda está nos estágios iniciais da alfabetização (ensinada mais em casa do que na escola!), poderá deleitar-se com as Reinações de Narizinho e as Caçadas de Pedrinho. Não vejo a hora de poder frequentar com ela alfarrábios e livrarias e orientá-la na escolha dos livros que irá ler, fazendo-a descobrir o mundo de possibilidades que se descortinam nas páginas de um livro. O Parecer do CNE, no entanto, suscitou em mim uma dúvida atroz. Estarei reforçando estereótipos e preconceitos ao indicar a leitura de Monteiro Lobato para minha filha? Para a subscritora do Parecer, a resposta é sim. Observem o seguinte trecho: 

Portanto, as ponderações feitas pelo Sr. (suprimo o nome do “denunciante”), conquanto cidadão e pesquisador das relações raciais, devem ser consideradas. A escola, a rede pública e privada de educação do Distrito Federal e a Secretaria de Educação devem considerar que as críticas aos estereótipos raciais presentes no livro Caçadas de Pedrinho e apontadas pelo requerente não se referem a trechos isolados. Antes, fazem parte da análise do todo, do contexto histórico e social da obra e vivido pelo autor, da ideologia racial, das representações negativas sobre a cultura popular, o negro e o universo afro-brasileiro presentes não só no livro Caçadas de Pedrinho, mas, também, em outras publicações de Monteiro Lobato. (supressão efetuada pelo autor do blog).

Conclusão: se a leitura não for acompanhada por um leitor adulto, as obras de Monteiro Lobato podem desenvolver nas crianças sentimentos preconceituosos e racistas! O que acontecerá, contudo, se o leitor adulto, a quem caberá o dever de orientação da criança leitora, também tiver sido impregnado pela apologia subliminar racista de Monteiro Lobato? O paroxismo do politicamente correto coloca em dúvida clássicos da literatura universal.
Não é de hoje que autores consagrados são acusados de racismo. O belga Hergé, criador do personagem de quadrinhos Tintin, foi por reiteradas vezes acusado de colonialista e preconceituoso. Alguém poderá dizer que existem motivações ideológicas inconfessáveis nessas obras, o que pode ser verdade, mas não creio que isso deva legitimar uma verdadeira caça às bruxas. Tintin é, a meu ver, colonialista. Mas ouso dizer que as aventuras do menino-repórter belga são, até hoje, deliciosamente colonialistas. Na minha infância sonhei em ser como Tintin. Um herói sem super-poderes, um repórter destemido que viaja pelo mundo lutando contra injustiças. É fato que nos livros de Hergé os africanos são estereotipados e vistos a partir da ótica colonialista européia. Mas, convém frisar, Hergé, venerado na Bélgica e nos países francófonos, publicou seus quadrinhos num período em que as potências européias ainda mantinham colônias na África. Isso não justifica preconceito, claro que não. Mas o contextualiza e não retira a qualidade das obras. Pedrinho e Tintin não podem deixar de ser o que realmente são, personagens infantis. Tia Anastácia é o estereótipo da gentileza e do aconchego materno. Junto com D. Benta, a razão, a prudência e a ponderação, ambas se transformam no arquétipo da mãe. Ver racismo no tratamento dado por Monteiro Lobato ao personagem Anastácia é o mesmo que criticar o absolutismo do Príncipe Escamado, que governa o reino das Águas Claras e de quem a menina Narizinho fica noiva (talvez numa alusão pedófila). Acusemos Monteiro Lobato de incitar a pedofilia!
 
O curioso é que o “denunciante” não faz referência ao Tio Barnabé. Sei que esse personagem, claramente inspirado no livro “A Cabana do Pai Tomaz”, de Harriet Beecher Stowe, aparece na série Sítio do Pica-Pau Amarelo da TV Globo, mas não me recordo dele nos livros de Monteiro Lobato. “A Cabana do Pai Tomaz”, um clássico da literatura americana, talvez também não possa ser lido nas escolas. Os critérios utilizados para escolha da obras que serão lidas nos estabelecimentos de ensino são: a) qualidade textual; b) adequação temática; c) ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações; d) qualidade gráfica; e) potencial de leitura, considerando o público-alvo. Quantas obras infantis passarão por esse crivo? Com esse critério, não será mais possível ler os contos dos irmãos Grimm ou de Andersen nas escolas.


Nenhum Conselho de Educação pode dizer o que meus filhos vão ou não ler. Essa é uma decisão que cabe aos pais. Chega de patrulhamento e de governos dizendo o que devemos fazer. Se a escola da minha filha censurar obras da literatura universal, transfiro-a para outra escola. Aliás, penso que se a escola da minha filha se limitar a ensiná-la a ler e a escrever satisfatoriamente um texto, além de fazer as quatro operações matemáticas, dar-me-ei por satisfeito. E que venham os Lobatos, Hergés, Andersens, Grimms, Tolkiens...