"There's no there, there". (W. Gibson. Mona Lisa Overdrive)
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sábado, 29 de abril de 2017

MARXISMO E SEBASTIANISMO

Li Marx aos 17 anos. Recebi depois verdadeira doutrinação na universidade. Durkheim e Weber foram-me apresentados como contraponto às teorias marxistas. Desconfiei, pois o velho Marx apareceu como uma espécie de Dom Sebastião. Suas ideias, que muito bem refletiam a sociedade europeia oitocentista, transformaram-se em dogmas. Houve quem considerasse Marx o grande pensador do século XX. Um engodo, óbvio. Jamais acreditei na influência direta e recíproca da infraestrutura material sobre a superestrutura ideológica. O mundo passava a ser explicado a partir de uma utopia, não a de Morus, mas a do prosélito economista político. Sempre achei as relações humanas muito mais complexas do que o simplismo da luta de classes. Muitas falácias foram desenvolvidas a partir de Marx. Gramsci e outros influenciaram a academia brasileira de uma forma que se dizer estruturalista ou funcionalista resultava em crime capital e exclusão do meio universitário. É triste. Marx foi um bom teórico, mas deixou-se levar pela política e construiu, ou melhor, forjou sua teoria com claros objetivos políticos. Sua descrição das falhas do capitalismo foram, até certo ponto, precisas. Mas suas predições falharam. O que seria teoria virou ideologia e esta tornou-se religião. O apelo à utopia cala fundo em alguns corações mais nobres. Outros a usam com claros objetivos pessoais. Não há altruísmo nesses casos, e sim o egoísmo vaidoso de se sentir defensor de uma causa, de um reino que jamais se instalará. O mundo mudará. As tecnologias transformarão a vida humana, talvez libertando-nos do trabalho. O capitalismo se reorganizará, com suas contradições. E haverá os que continuarão aguardando Dom Sebastião. O marxismo é um sebastianismo.

sábado, 18 de março de 2017

NEUROSES E PERSONALIDADES PSICÓTICAS




NEUROSES E PERSONALIDADES PSICÓTICAS


NEUROSES E PERSONALIDADES PSICÓTICAS
Quanto mais leio sobre o comportamento humano, do ponto de vista individual ou coletivo, mais me impressionam algumas condutas. Recentemente um amigo relatou-me o fato de que uma pessoa havia jurado destruí-lo, pessoal e profissionalmente. Fiquei imaginando o grau de frustação dessa pessoa para tornar o outro o objeto do seu ódio e de sua vingança. Em regra, as pessoas que sentem inveja ou ciúme projetam no outro o seu objeto de desejo. A frustração por não conseguir o que se pretende, por não ter o mesmo grau de inteligência ou sucesso pessoal e profissional faz o indivíduo pretender destruir o objeto de seu próprio desejo. Matando-se o objeto, mata-se o desejo. Dedicar uma vida à destruição de alguém é o paroxismo da autoaniquilação. Se não posso ter ou ser o que desejo, atribuo meus fracassos a alguém, a quem admiro, e faço o possível para, paradoxalmente, destruí-lo. Em psicanálise, ouso dizer, trata-se de uma neurose obsessivo-compulsiva, que a meu ver enquadra-se no gênero de neuroses transferenciais, tal como definidas por Freud. Nesses casos, tem-se um superego que pode agir com crueldade quando se depara com a desobediência aos seus comandos; pulsões agressivas mal resolvidas e um ideal de ego que está pleno de expectativas, algumas irrealizáveis. Existem mecanismos defensivos em relação a esse tipo de neurose, como a anulação, o isolamento ou a intelectualização, mas o fato é que o ego do indivíduo está submetido a um superego tirânico e é pressionado pelas pulsões do id. 
Bem, essa é uma explicação psicanalítica para esse tipo de problema. E deixo claro que não sou especialista na matéria. No entanto, tais comportamentos me surpreendem. Ouvi certa feita um relato de que uma pessoa, exercendo um cargo de chefia, reportou-se ao seu subordinado dizendo, literalmente, que tinha ciúmes desse subordinado. Recomendou que o subordinado não pretendesse dar voos muito altos e se recolhesse ao seu lugar. Esse tipo de comportamento a meu ver ilustra a relação entre obsessão e compulsão. No primeiro caso, tem-se os pensamentos que se infiltram na mente do indivíduo, atormentando-o. No segundo caso, tem-se uma reação comportamental, com o objetivo de frear o pensamento. Em toda neurose há um traço de psicose. E essa parte psicótica da personalidade tem características marcantes: pulsões destrutivas, como a inveja; angústia de aniquilamento; baixo índice de tolerância às frustrações; e o uso dos splittings, que são um mecanismo de defesa que faz com que o indivíduo seja incapaz de reunir as qualidades positivas e negativas numa mesma pessoa. Nos casos extremos o indivíduo se diz perseguido, injustiçado, perde a capacidade de discriminação, projetando esses temores e ansiedades.
Refletir sobre essas questões sempre exerceu sobre mim um fascínio especial. É um descortinar as pessoas e a si mesmo diante de constatações que são absolutamente difíceis de aceitar. Mas o grau de perversidade dos atos praticados pelos indivíduos que sofrem desses males pode ser absolutamente danoso. Muitos são ardilosos, manipuladores, apresentam-se como vítimas dos outros e, não raro, conquistam a adesão das pessoas, que não conseguem à primeira vista discernir no indivíduo o seu caráter psicótico ou neurótico. Muitos temem aqueles que consideram mais sábios, mais inteligentes, mais preparados. Pensar sobre essas questões não é fácil, pois nos deparamos muitas vezes com um espelho no qual não vemos uma imagem invertida de nós mesmos. Mas o fato é que tais pessoas podem causar inúmeros estragos a si mesmas e aos outros com quem são obrigadas a conviver. Não é fácil identificá-las, sem identificar em nós mesmos que tipos de neuroses ou psicoses possuímos. Difícil tarefa de autoconhecimento.

Fernando Amorim
   

sábado, 25 de fevereiro de 2017

GESTÃO EM TEMPOS DE CRISE



Tenho tentado ler alguns textos sobre gestão. Faço-o muito mais para compreender como funciona a mente dos chamados gestores. Algumas ideias são comuns, a maioria bem óbvias.

1. Em tempos de crise econômica e institucional, a valorização e preservação dos talentos de uma empresa é fundamental. Empresas que não agem assim, correm o risco de sucumbir.

2. Muitos dos profissionais não estão empenhados e preocupados com a totalidade da empresa. Querem apenas perceber seus salários e ir para casa no fim do dia. Pesquisas apontam que 13% dos trabalhadores de uma empresa estão efetivamente engajados no trabalho!

3. Muitos gestores não conseguem acompanhar a velocidade do uso de tecnologias de informação na gestão. Não concebem as ações que exigem capacidade para exercer multitarefas e, ainda, estão apegados ao velho modelo de burocrático de horas de trabalho despendidas pelo funcionário. Ainda que o indivíduo nada produza de bom para a empresa durante todo o tempo em que "veste a camisa" (expressão vazia de sentido), o que vale é a aparência de participação. Até os erros e equívocos começarem a aparecer...

4. Empresas que faliram quase sempre buscaram ajuda externa imaginando que o ente alienígena é capaz de retomar o crescimento. Nem sempre. A agente externo não conhece a cultura organizacional. Leva um tempo para que isso ocorra. Seu ingresso na empresa faz-se dentro de uma cadeia de poder, o que pode fazer com que o próprio agente externo não tenha a liberdade para agir como deve. O que aconteceria se esse agente sugerisse a demissão de toda a diretoria da empresa? Seria ele o demitido, claro.
5. O estabelecimento de metas exige planejamento. E o planejamento deve ser exequível, elencando as necessidades mais imediatas.

6. Um plano de comunicação de marketing é a base do desenvolvimento institucional, do ponto de vista interno e externo. Mas esse planejamento tem de ser anual.

7. Vácuos de liderança são absolutamente nocivos no setor público e privado. Em primeiro lugar, demonstram hesitação no comando. Em segundo lugar, dão lugar a especulações indevidas, que podem inclusive afastar os bons profissionais.

8. A centralização de decisões é tão nociva quanto a democracia plena. Ouvir todos os setores e todos os envolvidos nos processos decisórios é uma obrigação. Ficar paralisado diante das opiniões conflitantes é um erro.

9. O argumento de que alguém externo não possui os "vícios" da empresa é um paroxismo. Quando um gestor afirma isso, demonstra total desconhecimento de gestão, pois está indiretamente afirmando que todos os seus funcionários estão prenhes de vícios. Confunde-se assim a cultura institucional, que pode ter suas falhas, e os vícios institucionais, a maior parte deles estimulada pelo próprio gestor.

10. Última regra. "Logo aprendi que não há personalidade eficaz. As pessoas eficazes que conheço diferem amplamente nos seus temperamentos e capacidades, no que fazem e como o fazem, em suas personalidades, em seus conhecimentos, em seus interesses – de fato em quase tudo o que distingue os seres humanos. O que todos têm em comum é a capacidade de fazer a coisa certa."(Peter Drucker)

Fernando Amorim

domingo, 22 de janeiro de 2017

AOS PROFESSORES



Prezados colegas docentes.
 

Resolvi fazer algo diferente das habituais reuniões de professores. Não preciso aqui reiterar os avisos corriqueiros sobre digitação de notas, faltas, frequência às aulas, cumprimento de horários. Todos somos profissionais e conhecemos as nossas obrigações. Soa um tanto estranho que em todos os semestres tenhamos de relembrar alguém de suas atribuições funcionais. Eu diria que me sinto um tanto ridículo ao fazer isso. Após dez anos, não o farei mais. Peço-lhes desculpas por não ter assim decidido antes.
 

Escrevo-lhes, contudo, por razões outras. Sobretudo, pelo que mais importa. Nosso compromisso com aqueles que dependem, em maior ou menor grau, da nossa atuação. Todos nós, não importam o grau de titulação e dignidades acadêmicas que tenhamos, assumimos um compromisso com a educação. Queiramos ou não, estamos em sala de aula por considerarmos nossa atividade um dever moral, para conosco e para com a sociedade. É óbvio que também o fazemos por razões econômicas, mas sei que em que cada professor habita um sentimento de compromisso com a possibilidade de transformar a vida do outro e, assim, transformar a si mesmo.
 

Gostaria que refletíssemos sobre o papel que desempenhamos atualmente e o grau de compromisso com que o fazemos. Da mesma forma que temos alunos que às vezes nos abordam de maneira grosseira, ofensiva – e sei o quanto sofremos com isso –, temos docentes que não se sensibilizam com os alunos, tratando-os com indiferença e, principalmente, erigindo diante dos discentes a pior das barreiras: a barreira do conhecimento. Nenhum saber, por maior, mais profundo e mais complexo que seja pode servir de obstáculo, impedimento, recusa. Nenhum saber pode ensejar a rejeição. Nenhum saber se constrói a partir do silêncio. Voltar as costas para um estudante, negar-se a responder-lhe as perguntas, tratá-lo com ironia são atitudes que podem comprometer toda uma carreira, fazendo morrer no nascedouro algo que poderia florescer. O conhecimento edifica pontes entre as pessoas, jamais muros – e também sei o quanto os alunos sofrem com isso.
 

Creio que há um consenso diante do fato de que o processo de aprendizagem pertence ao aluno. Eu penso assim. Mas estou convicto de que cabe ao professor conduzir esse processo. Não precisamos ser complacentes com os alunos. O melhor a fazer por eles é sermos rigorosos, justos, cobrando dos discentes as suas responsabilidades, mas sobretudo orientando-os quanto às suas atitudes. Lidamos com jovens em tenra idade e com adultos inteiramente formados. Essas relações são complexas. Mas quais relações humanas não o são? Se decidimos ser professores, devemos estar aptos para lidar com isso. E não existem fórmulas para tanto. Temos no máximo as técnicas pedagógicas. Mas ninguém se torna um professor. É-se professor, e pronto. As técnicas apenas aprimoram o que em nós existe.
 

Muitas vezes acusamos os alunos de não assumirem suas responsabilidades. Infelizmente, o estudo sério não ingressa na lista de prioridades de algumas pessoas. E não adianta aconselharmos. Conselhos são infrutíferos. Precisamos dar o exemplo. Gostaria que olhássemos nossos alunos com outros olhos. Agir com rigor não significa ser rude. Se pretendemos ter um bom relacionamento interpessoal, jamais devemos transferir para os estudantes o desconforto que sentimos quando fomos advertidos pela Coordenação em razão de um problema havido em sala de aula.
 

Precisamos dar sempre o máximo de nós. Não devemos esperar o reconhecimento. Quem assim age vê-se frustrado com frequência, e não deixa de haver certo cinismo nessa postura. Sejamos francos com os alunos, estejamos abertos para ouvi-los. Sejamos capazes de dizer sim, quando preciso; e não, quando necessário. Mas sejamos sempre atenciosos. Esses mais de vinte anos de atividade acadêmica forjaram em mim uma certeza: lidamos com pessoas, por óbvio, e em muitos casos as pessoas apenas querem se fazer ouvir. E quantas vezes nós não gostaríamos de ser ouvidos pelos nossos alunos? Quantas vezes não nos sentimos falando para as paredes, questionando se valem a pena o sacrifício, a dedicação, o empenho?
 

Eu respondo. Valem a pena, sim. Por sacrifício entendo o compromisso diário com o estudo. O preparar as aulas, ministrá-las com clareza, objetividade, leveza e, por que não, uma boa dose de senso de humor. Não o humor chulo dos dias de hoje, mas a ironia fina que o conhecimento proporciona. Por dedicação entendo a atenção em sala, a urbanidade no trato com colegas e alunos, a seriedade ao dirigir-se ao discente, o exercício de uma autoridade que se impõe por si só. A autoridade do conhecimento, que não precisa ser exibida, posto que emana naturalmente. Por empenho eu concebo a abnegação, o fazer o melhor, sempre, para os alunos, e, principalmente, para si mesmo.
 

O resultado não será colhido hoje ou amanhã. Talvez sequer o percebamos. Mas estejam certos de que ele estará lá, todas as vezes que um aluno nos procurar para solicitar uma carta de recomendação, tirar uma dúvida, compartilhar uma angústia pessoal ou profissional. O resultado vem quando olhamos as cadeiras vazias numa sala de aula e pensamos em quantos sonhos por ali passaram, quantas frustrações foram ali suplantadas e quantas alegrias ali foram semeadas.
 

Termino pedindo-lhes que reflitam sobre isso. Não custa nada explicar aos alunos o porquê de determinadas decisões que tomamos. E os alunos sabem, sim eles sabem, tanto quanto nós, que nenhum docente entra em sala de aula com o objetivo de causar algum tipo de mal ao aluno. E isso ocorre por uma simples razão: quem assim age não é professor. Que a razão nos ilumine a todos e o amor pelo conhecimento nos faça cumprir nossas tarefas. Como Coordenador estarei mais vigilante, ouvindo a todos, docentes e discentes, e fazendo o que me compete fazer: co-ordenar. Não me eximirei da obrigação de ordenar, quando for preciso, mas o farei sempre a partir das minhas convicções, construídas na escuta do outro.
Fernando Amorim

domingo, 4 de dezembro de 2016

FOI-SE FERREIRA GULLAR



Foi-se Ferreira Gullar. Em homenagem um trecho do "Poema Sujo". 
 
"Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se
meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê
Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai
corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem
ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre."

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A INVEJA


Certa feita um ex-chefe e colega de profissão que tive no poder público olhou-me nos olhos e disse ter inveja de mim. E acrescentou de imediato, “mas uma inveja boa”. Saí da sala pensando como alguém pode sentir uma “inveja boa” de alguém. A inveja faz não apenas o sujeito desejar ser o que o outro é e ter o que o outro tem. Ela vai mais além, pois o invejoso deseja, em verdade, a destruição do detentor do próprio objeto da sua inveja. A inveja pressupõe uma negação hostil do objeto necessitado.
Em sua obra Fundamentos Psicanalíticos, hoje um clássico da psicanálise, David Zimerman relata que a principal dificuldade do invejoso reside na aceitação da sua própria condição. O invejoso apresenta-se numa posição esquizoparanóide, ou seja, ele não sente culpas e não assume suas responsabilidades, ao contrário, tende a racionalizar sua condição como uma reação de defesa à inveja alheia e aos ataques que pensa sofrer por parte dos outros. O invejoso sempre realiza um jogo de comparação com as demais pessoas. E nessa relação só existem vencedores e perdedores.
Para diminuir a dor da privação, só restam duas saídas ao indivíduo invejoso: arrebatar o objeto desejado à força ou por meio de atitudes maquiavélicas; ou, ainda, privar o outro da posse do objeto cobiçado, denegrindo a imagem do seu opositor. O curioso é que os invejosos podem sofrer de depressão narcisística, apresentando um sentimento de vergonha (ideal do ego X ego real) e de humilhação (ego ideal X ego real). A inveja torna-se, assim, uma medida de sobrevivência psíquica, mas inibe no invejoso a capacidade de amar.
Não preciso ir muito além para dizer que o indivíduo invejoso pode causar muito mal aos outros. Eu próprio, e muitos outros colegas, já fomos objeto dessa fúria do invejoso. Não vou detalhar os fundamentos psicanalíticos que estão na origem desse sentimento, mas ter um invejoso no ambiente de trabalho pode causar um mal terrível a todos. Principalmente àqueles que se contaminam facilmente com a identificação projetiva do invejoso.
Fernando Amorim

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ASSÉDIO MORAL NO SERVIÇO PÚBLICO

FONTE: http://www.ouvidoria.mppr.mp.br/arquivos/File/cartilha.pdf

Os gestores públicos devem abrir os olhos para esse problema. O assédio moral na administração pública é uma realidade muito mais comum do que imaginamos. O assédio moral é a forma mais vil, torpe e covarde de violência no ambiente de trabalho, uma vez que nem sempre os elementos de prova estão evidentes. O assédio se traveste da falsa gentileza, do comentário maldoso, do elogio insincero. Quem assedia, tanto pode fazê-lo por ação quanto por omissão. Não lotar o servidor em local em que pode render mais e ser mais eficiente, não lhe fornecer os instrumentos de trabalho, não adotar providências para evitar que o servidor se ponha em situação vexatória são condutas omissivas tão graves quanto as ofensas pessoais e o patrulhamento da conduta do servidor. O STJ já decidiu que assédio moral é ato de improbidade administrativa. Os quase vinte anos que possuo no serviço público, como procurador, ensinaram-me que o silêncio do servidor assediado é muito eloquente. A covardia, inveja, incompetência e fraqueza de caráter de quem assedia estão escondidas, em boa parte das vezes, sob a máscara da simpatia e amistosidade. Infelizmente, poucos são os entes públicos que possuem códigos de conduta capazes de coibir esse mal.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

SIMULACROS DE INTELECTUAIS


Revendo alguns dos confusos discursos da presidente, passei a refletir sobre  o quanto é fácil as pessoas se deixarem enganar pela falsa competência alheia. Principalmente quando esse "alheio" tem pretensões políticas. E não me refiro aqui apenas à presidente. Alguns  desses  indivíduos vendem uma falsa imagem de competência intelectual e de conhecimento adquirido, mas são, na verdade, um grande engodo. Não é difícil identificar esse tipo de personagem, embora  eles saibam muito bem mascarar suas falhas, mostrando-se por vezes simpáticos e solícitos. Empatia e solicitude ajudam muito a mascarar severas falhas  intelectuais e de caráter. Tais pessoas possuem apenas um pequeno verniz de cultura e conhecimento, mas aparecem para o público como grandes intelectuais. No entanto, sua formação cultural (no sentido clássico), e, em alguns casos, jurídica são rasas como um pires. Não distinguem um Monet ou um Rembrandt de uma pintura rupestre; desconhecem qualquer peça de Bach, Mozart ou Wagner e jamais abriram Dostoiévski, Camus, Proust ou o nosso mestre Graciliano. Quando se aventuram pelo direito, alguns desses simulacros de intelectuais  que almejam cargos públicos nada fazem senão reproduzir conceitos ultrapassados, vendendo-os como grande novidade aos incautos. Poucos ostentam títulos acadêmicos (que apenas interessam à academia, por óbvio), desmerecendo-os por não os terem, ou inventando-os quando lhes convém. Quinze minutos de conversa com tais indivíduos e facilmente se pode identificar o quão frágeis são as suas bases intelectuais. Mas, como diria Baudrillard, vivemos na sociedade do simulacro. E ficamos com esses simulacros de intelectuais, entregando-lhes os destinos das nossas instituições, deixando-nos enganar por sua  suposta simpatia. Uma simpatia tão falsa quanto o conhecimento que dizem possuir.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

FRASES DE EFEITO: O ELOGIO DA BANALIDADE

Não gosto de frases feitas, um amálgama de lugares comuns, nada originais, comumente repetidos como mantras nos ambientes corporativos. Quase sempre essas frases escondem ineficiência, pouca capacidade de iniciativa e de realização. Seu efeito motivacional é, a meu ver, nenhum. Tais frases feitas parecem uma espécie autoajuda empresarial. Repetindo esses mantras, o "colaborador" da empresa realmente passa a acreditar que sua eficiência e capacidade de iniciativa irão se materializar. Não vão. Pois sem competência, clareza e objetividade os resultados não aparecem. E não adianta estimular artificialmente o sentimento de pertencimento à empresa com um sorriso atávico na face e um mantra repetido à exaustão. O ambiente corporativo é frio, objetivo e competitivo (frase feita!). Não se pode tratá-lo como uma interminável sessão de autoajuda.
"Être soi, c’est assumer les passions qui nous brûlent de l’intérieur, c’est prendre son courage à deux mains pour affirmer ses opinions."
"Sur cette planète, vous êtes la seule personne qui ait la légitimité à pouvoir vous juger."

quarta-feira, 15 de julho de 2015

ODR NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

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Publico mais um vídeo que produzi, desta feita com outra ferramenta de edição, sobre resolução online de litígios na Administração Pública.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Online Dispute Resolution em três minutos

Divulgo um pequeno vídeo que produzi sobre o que estou estudando no Canadá.Trata-se de produção artesanal, bem elementar, mas ainda assim apresenta, sem aprofundar conceitos, os meios online de resolução de litígios.
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sábado, 4 de abril de 2015

PLANEJAMENTO E AÇÃO



Em muitas empresas, o excesso de planejamento embota e inibe a ação. Perde-se muito tempo planejando ações rotineiras, já executadas anteriormente e cristalizadas no "savoir-faire" dos funcionários. São fluxos, checklists, atividades e tarefas, cujo nome, hoje em moda, é planejamento estratégico. Em alguns casos, tais atividades parecem funcionar muito mais para satisfazer a ilusão de que se está criando algo, do que efetivamente ordenar os procedimentos. Não estou com isso afirmando que não se deva planejar, não isso, e seria uma tolice obtusa se chegar a essa conclusão. No entanto, não raro os problemas e conflitos internos da empresa afloram nessas reuniões de planejamento, expondo os funcionários mais extrovertidos e inibindo aqueles que, em privado, teriam muito a dizer.

Em gestões com tal perfil, o preenchimento de formulários suplanta as ações efetivas. Não importam os resultados finais, ou talvez eles importem menos, desde que os fluxos de procedimento tenham sido cumpridos. O vício da forma, tão presente no ethos do brasileiro, compromete o pragmatismo e a eficiência do conteúdo. A perda de energia no planejamento culmina com o risco, bastante evidente, de não cumprimento das metas e objetivos traçados. Desconsiderando-se a notória predisposição dos ocupantes de cargos de chefia para utilizar as infindáveis reuniões de planejamento para demarcar o seu território e delimitar as relações de poder no âmbito da empresa, as ditas reuniões de planejamento podem muito mais atrapalhar do que ajudar.  

O problema é que nem sempre – eu diria, quase nunca – quem planeja é o indivíduo que também vai executar as tarefas. Se o planejamento se torna um fetiche para o gestor, haverá um hiato, um imenso abismo a ser transposto, pois quem executa nem sempre tem a mesma visão do problema e tampouco poderá estar convencido de que as soluções propostas são as mais eficazes. O processo funciona mais ou menos como a cegueira das hipóteses na pesquisa científica. Preso às hipóteses previamente formuladas, o cientista finda por mascarar a realidade, distorcendo-a para justificar não apenas as hipóteses, como também os procedimentos adotados. Tais problemas afloram com maior intensidade quando as organizações precisam tratar a inovação e lidar com o imponderável. A complexidade dessas situações exige soluções igualmente complexas, e nem sempre as ditas reuniões de planejamento preveem e antecipam tais soluções.

A sociedade exige que todos deem o máximo, imediatamente, o tempo todo, provando que o fazem. Essas exigências de curto prazo se opõem ao que a incerteza sobre o futuro nos impõe a longo prazo: adaptação, flexibilidade e escuta. Pessoas e empresas que cobram, de si mesmas e dos outros, o máximo, imediatamente, o tempo todo, não conseguem estar abertas para o novo, pois só podemos executar com o máximo de eficiência e competência as tarefas que já executamos anteriormente. É para isso que serve a experiência, que nos faz repetir o que já foi realizado. A experiência , porém, é pouco útil quando se trata de lidar com a inovação, a incerteza, o futuro. A chave está em se fazer bem o que já se faz, mas estar aberto à inovação, a incerteza, ao imponderável. Isso requer uma capacidade de adaptação, flexibilização  e improvisação que aproxima da arte as práticas gerenciais e de administração. As ciências da gestão não são ciências em si mesmas, pois remetem a um certa forma de arte, entendida como inventividade. É isso o que exige o paradigma da complexidade aplicado às organizações.

domingo, 29 de março de 2015

FAÇA O QUE EU DIGO, MAS...: O DESCONFORTO DO CONSTITUCIONALISMO ÉTICO




      O senador ultraconservador Ted Cruz, do Texas,  anunciou sua candidatura à presidência dos Estados Unidos. Cruz é um dos maiores críticos do “Obamacare”, o programa de reforma do sistema de saúde americano, aprovado durante o governo de Barak Obama. Recentemente, Cruz anunciou que ele e sua família irão aderir ao Obamacare. Em entrevista na rede CNN, indagado se não haveria uma contradição entre criticar o programa de reforma da saúde e a ele aderir logo em seguida, Cruz respondeu que não via qualquer problema em sua conduta, pois estava apenas exercendo um direito seu, como qualquer cidadão americano, embora continue a discordar do programa. “Estou apenas cumprindo a lei”, afirmou.
            O exemplo de Cruz é, a meu ver, revelador dos inúmeros problemas que envolvem o debate sobre a separação entre o direito e a moral e, ainda, sobre o constitucionalismo ético. Se a reforma do programa de saúde americano é, para alguns, moralmente condenável, soa irracional criticá-la e, ao mesmo tempo, a ela aderir, sob o argumento de que  se está apenas cumprindo a lei.
            A estranheza diante dessa situação é resultante de uma concepção do direito que não o separa da moral, comum no constitucionalismo de matriz principiológica e suas vertentes retóricas e argumentativas, tão em moda atualmente. Essa postura negadora do positivismo jurídico finda por defender uma concepção objetivista da moral, segundo a qual as normas jurídicas têm sempre uma pretensão de justiça, caracterizando uma inevitável aproximação conceitual entre direito e moral. Uma norma injusta e, por isso, moralmente condenável, perderia a sua validade jurídica nos casos de injustiça extrema. Não bastaria uma pretensão de justiça no sentido apenas subjetivo ou individual, sendo necessário que as normas válidas apresentem uma pretensão de justiça num sentido objetivo e universalizável. O reconhecimento de uma realidade jurídica, de um direito válido, só será possível se se recorrer a um juízo moral. Direito e moral seriam, portanto, indissociáveis. Os críticos dessa postura lembram que extrair o fundamento de validade de uma norma jurídica a partir de juízos morais pode conduzir a um absolutismo moral que enfraqueceria o direito. O cognitivismo ético levaria inevitavelmente ao absolutismo moral, pois pretende que os valores considerados objetivamente justos sejam impostos a todos, o que implica a não admissão do pensamento dissidente.
            A afirmação de Ted Cruz, no entanto, pode ser entendida a partir de outra perspectiva. Ao afirmar que cumpre a lei, ainda que não concorde com ela, Cruz parece advogar uma necessária separação entre direito e moral, defendida pelas teorias positivistas do direito. Aceitar essa distinção, como ocorre com o garantismo jurídico, por exemplo, não significa dizer que se tenha de incorrer na  falácia normativista  que impede o reconhecimento de normas inválidas,  embora vigentes ou, ainda, que não se reconheça a existência de normas válidas e ineficazes, ou normas inválidas, porém eficazes, como fazem as correntes realistas do direito.
            Simplificando, inexistiria uma obrigação moral de observância das normas jurídicas, bem como uma obrigação jurídica para que se respeitem as normas morais. Se Cruz e sua família condenam o programa de assistência à saúde do governo americano, sua adesão ao Obamacare não constituiria, no entanto, uma negação da posição política inicial, uma vez que se estaria no terreno do direito, e não da moralidade. O problema é que, desconsiderando-se a notória compulsão dos políticos para dizer algo e fazer outra coisa completamente distinta, a afirmação do senador recai na falácia do normativismo, pois ainda que se admita a separação entre direito e moral, validade e justiça, não haveria impedimento para que este se sentisse desobrigado de aderir ao programa, caso este fosse realmente injusto ou moralmente condenável.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

INDONÉSIA E A PENA DE MORTE

A Indonésia tem mais de 240 milhões de habitantes, a maioria muçulmana, e se considera a terceira maior democracia do mundo. Sua Corte Suprema já revisou sentenças de condenação à morte, em 2008, e seu governo também já negou vários pedidos de clemência. Depois das ditaduras de Sukarno, comunista, (1945-1967) e Suharto (1967-1998), a Indonésia vive em clima, digamos, democrático. No preâmbulo de sua Constituição, de 1945, o país baseia-se em cinco princípios: crença em um só Deus, humanitarismo, democracia representativa, unidade nacional e justiça social. A despeito disso, as leis da Indonésia admitem a pena de morte. No entanto, nenhum outro país pode exigir do governo indonésio a conversão das penas de morte em prisão perpétua. Brasileiros, franceses, australianos e até mesmo indonésios aguardam execução. O pedido de clemência é praxe nesses casos, mas inexiste a obrigação internacional para que um Estado o aceite. Pode-se ser contra a pena de morte, e o mundo civilizado não admite mais esse tipo de punição, mas os Estados são soberanos para fazer suas escolhas nessa matéria. No caso dos brasileiros condenados à morte, ninguém pode afastar a alegação de que ambos sabiam dos riscos de se traficar drogas num país com regras tão rígidas. A posição do governo brasileiro, ao se negar a receber as credenciais do embaixador da Indonésia no Brasil, é um ato de "agressão" diplomática, uma atitude infeliz que não demarca uma posição firme do governo brasileiro. Ao contrário, demonstra certo desprezo pela soberania alheia, desprezo esse travestido de falsa indignação moral pela morte de um seu nacional. Pergunto: vale a pena romper relações diplomáticas com um país que aplicou suas leis e executou um condenado à morte por tráfico de drogas (ou por qualquer outra razão)? É tênue a linha que separa a hipocrisia da verdadeira diplomacia.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

AVALIAÇÃO

É decepcionante, para não dizer vergonhosa, a forma como a Comissão Nacional de Ensino Jurídico do Conselho Federal da OAB tem efetuado a “avaliação” dos cursos de Direito no Brasil. Listo aqui algumas questões básicas que merecem reflexão. Deixo claro que se trata de opinião estritamente pessoal:
1. As Comissões, nacionais e estaduais, são formadas por advogados. Não existe a obrigação de que tenham experiência em sala de aula e, o que é mais grave, participem da gestão acadêmica. Infelizmente, alguns desses profissionais demonstram um profundo desconhecimento do processo de avaliação de cursos superiores desenvolvido pelo Ministério da Educação.
2. Como pode a CNEJ avaliar um curso sem tê-lo verificado in loco, como fazem as Comissões do Ministério da Educação? A Comissão da OAB baseia-se no relatório de avaliação de curso realizado pelo MEC e no relatório que as comissões locais das seccionais da OAB elaboram. Pasmem, a CNEJ desconsidera solenemente essas informações. Em resumo: quem avalia na CNEJ em Brasília, desconhece a instituição de ensino que está avaliando, nunca a visitou e, por isso, deveria basear-se mas informações do MEC, mas não o faz!
3. O processo de avaliação em Brasília é no mínimo questionável. Quarenta, cinquenta ou mais instituições de ensino são avaliadas em um único dia. Seus representantes têm apenas 10 (dez) minutos para responder às perguntas formuladas, tendo em muitos casos que corrigir erros graves, cometidos pelos avaliadores, de entendimento e interpretação da legislação nacional sobre ensino superior.
4. Apenas para servir de parâmetro para comparação, a avaliação do MEC dura três dias, são auditadas in loco três dimensões do curso: instalações físicas, corpo docente e projeto pedagógico. Alunos, professores e diretores são sabatinados por avaliadores treinados, professores universitários com mestrado e/ou doutorado, indicados por sorteio eletrônico. As informações são verificadas e os avaliadores seguem estritamente um roteiro de avaliação, o chamado instrumento de avaliação. O procedimento é sério, rigoroso e desgastante.
5. A CNEJ da OAB, cujo parecer é meramente opinativo, dá um peso significativo ao Exame da Ordem, que tanto exaspera os alunos, como se a aprovação no exame da OAB fosse a única razão de ser da existência de um curso de Direito. Nem todos os alunos se submetem ao exame da OAB e é mesmo muita pretensão da OAB imaginar que os cursos de Direito formam advogados. NÃO formam! Cursos de Direito formam bacharéis em Direito. A advocacia, profissão que exerço com orgulho, é apenas umas das carreiras jurídicas que podem ser seguidas. Por essa lógica, atribuir à OAB, ainda que por previsão legal, a fiscalização do ensino jurídico – que não deveria ser atribuição de órgão de classe, pois para isso existe o MEC – é menosprezar a atuação de outros órgãos de classe vinculados às carreiras jurídicas, como os conselhos nacionais da Magistratura e do Ministério Público.
6. O problema é que as estatísticas dos Exames da Ordem fornecidas pela OAB NÃO são confiáveis, pois os números levam em consideração apenas um dado matemático simples: a quantidade de alunos que cada instituição de ensino submete ao exame e os percentuais de aprovação. Explico: uma Instituição que inscreva 2 (dois) alunos e aprove 1 (um), terá 50% de sucesso no exame da OAB. Uma outra Instituição que inscreva 100 (cem) alunos e aprove 40 (quarenta), terá 40% de aprovação. Pergunto, é possível, com base nesses números, dizer que a primeira instituição é melhor do que a segunda? A resposta tem de ser negativa. Em Alagoas já houve um caso de uma faculdade que inscreveu três alunos no Exame da OAB, aprovou os três e divulgou que tinha 100% de aprovação no exame...
7. O ENADE é a prova considerada pelo MEC para avaliar o desempenho dos alunos do ensino superior. Os conteúdos cobrados no ENADE são muito distintos dos conteúdos cobrados no exame da OAB. Por que razão não há uma unificação das provas? Em anos de ENADE para os cursos de Direito, como 2015, os alunos são obrigados a servir a Deus e ao diabo!
8. Ninguém contesta a pauta política da OAB e o papel que a Instituição desempenha para a democracia brasileira. Mas, como órgão de classe que é, não seria de bom alvitre que a OAB centrasse sua atuação na defesa das prerrogativas dos advogados e deixasse a avaliação do ensino superior para quem tem competência para fazê-lo, o Ministério da Educação?
9. Fala-se muito em avaliar os alunos egressos do curso de Direito, massacrando-os com provas e exames, mas não se fala, por exemplo, em avaliar os profissionais do direito, em especial os advogados, após cinco, dez anos de exercício da profissão. Por acaso a aprovação no Exame da Ordem garante que o advogado possua conhecimento acumulado para o resto da sua vida profissional?
10. O ensino jurídico precisa passar por uma reformulação do Brasil. Em verdade, o ensino universitário precisa passar por mudanças. Mas tais mudanças devem ser conduzidas pelo Ministério da Educação. E isso envolve fatores muito mais complexos, como investimento no ensino fundamental e médio, que são os degraus necessários para o ensino superior. Enquanto tivermos políticas de avaliação que fracionam o ensino em compartimentos, enquanto órgãos de classe simularem processos avaliativos canhestros e equivocados, realizados por pessoas despreparadas que apenas pretendem criar factoides para projeção pessoal na mídia, estaremos fadados a uma única conclusão: definitivamente, este não é um país sério.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

JE SUIS CHARLIE



É comovente ver as pessoas comuns, na França, reunidas nas ruas de todo o país para chorar as mortes perpetradas pela cegueira religiosa. A liberdade de expressão sofreu um duro golpe diante   da intolerância fundamentalista. Não importam os deuses. Não importa se existem ou não. Nenhum deles merece o sangue humano derramado e as vidas violentamente interrompidas. Como jornalista, eu digo: moi aussi, je suis Charlie!

sábado, 13 de dezembro de 2014

ECONOMIA E EDUCAÇÃO





Em 2005, o saldo da balança comercial brasileira  (a diferença entre o que o país exporta e  aquilo que importa) era positivo e estava em cerca de 19 bilhões de dólares. Em 2014, o saldo, até a metade do ano, é negativo, ou seja, déficit de mais de 2,4 bilhões de dólares. Compramos mais do que vendemos. Os gráficos  abaixo, retirados de relatório do próprio Governo Federal (Ministério da Indústria), ilustram bem a gravidade do problema. Não há competitividade na indústria nacional e o número de empresas exportadoras diminuiu em relação aos anos anteriores. Embora não seja economista, e nessa matéria não ouso sequer dar palpites, arrisco uma conclusão, óbvia, penso eu, porém não econômica. O setor de serviços, impulsionado pela ampliação da distribuição de renda dos últimos anos, não dá conta sozinho de segurar o crescimento do país. Sem uma indústria forte, estamos fadados à estagnação. A despeito de condições econômicas favoráveis, a indústria só cresce se tiver mão de obra bem qualificada. E assim voltamos ao velho e principal problema do país: educação. Enquanto a educação no Brasil estiver atrelada à complacência ideológica e às pedagogias inúteis, que pretendem formar cidadãos em lugar de ensiná-los a ler, escrever e realizar as quatro operações, estaremos condenados ao fracasso. Enquanto o magistério, subvalorizado, não receber remuneração digna e plano de carreira fundado no mérito individual, nossos alunos não irão a lugar algum. Enquanto o poder público não entender (embora entenda muito bem...) que reformar escolas sai muito mais caro do que fazer a adequada manutenção dos prédios públicos, nossos estudantes e professores estarão obrigados a frequentar locais insalubres, para dizer o mínimo. Se nos movermos agora, em 30 anos teremos algum resultado.





sábado, 11 de outubro de 2014

O QUE UM PROFESSOR NÃO É


Dessin: Philippe GELUCK http://www.geluck.com/








O que significa ser professor? Eu poderia tentar fornecer uma definição essencialista da atividade docente, bem ao gosto de uma postura fenomenológica que me é tão cara, mas correria o imenso risco de recair nos inúmeros lugares comuns que invadem essas definições. Tomarei um outro caminho. Também óbvio, por certo, mas ainda assim um caminho diverso. Começarei por dizer o que, a meu ver, um professor NÃO é (ou ao menos não deveria ser). Definições negativas servem para isso, depurar o sentido do objeto definido, desbastando o terreno para que se veja com maior clareza o que se pretende analisar, o que não deixa de ser um recurso ao método fenomenológico!
O professor não é um facilitador do conhecimento. Pedagogos modernosos insistem nessa expressão. Como atualmente todos os saberes estão em rede, e as conexões em rede fazem com que qualquer pessoa tenha acesso a informações que se propagam em escala exponencial, a figura do docente, detentor de um conhecimento especializado e capaz de transmiti-lo aos seus alunos, pareceu ficar obsoleta. De imediato procurou-se dar uma nova roupagem à velha atividade docente. O professor passou a ser um facilitador, alguém que apenas conduzirá o aluno pelas veredas do conhecimento. Essa é uma meia verdade.
Deixo claro que não desconheço as bases teóricas dessa mudança e suas implicações pedagógicas. Mas não irei explaná-las aqui, pois não seria o local e o modo apropriados. Com efeito, a maneira como as pessoas lidam com a informação e o conhecimento mudou radicalmente nos últimos cinquenta anos, mas isso não leva à conclusão inevitável de que professores transmutaram-se em meros facilitadores. Alguém poderia objetar que o aluno é, atualmente, o grande responsável pelo conhecimento que adquire. Essa afirmação, no entanto, baseia-se na falsa premissa de que somente com a conexão dos saberes em rede os alunos puderam se desvencilhar das velhas práticas docentes. Não defendo práticas pedagógicas antigas, pelo contrário, mas tal afirmação deixou a situação muito cômoda para muita gente, em especial para os próprios professores. Explico.
O corolário da afirmação de que o professor é um facilitador é a noção equivocada de que a sala de aula deve se tornar atraente para o aluno. Para isso, as aulas devem ser divertidas, sendo o docente a ponte entre o conhecimento e a diversão. O truísmo dessa afirmação beira o non-sens. Um indivíduo medianamente informado sabe perfeitamente que em qualquer ramo da atividade humana o conhecimento será melhor assimilado quando transmitido com leveza, clareza e objetividade. Mas isso não quer dizer que estudar, e aprender, seja sempre divertido, não é! Ou, pelo menos, nem sempre é divertido.
Todo profissional que efetivamente gosta do que faz, esforça-se para tornar sua atividade mais atraente. Um piloto de uma aeronave, por exemplo, pode transmitir as informações de voo aos seus passageiros de inúmeras formas, mas a maioria deles se esforça para transmiti-las de maneira a diminuir a tensão dos viajantes, em especial daqueles que temem as viagens de avião. Com os professores não será diferente. Mas ser claro e objetivo ao lecionar não fará da sala de aula um ambiente mais ou menos atraente. E assim ocorre porque clareza e objetividade não são sinônimos de simplificação de saberes que, na sua essência, são complexos e de difícil compreensão.
O senso comum elege como bom professor aquele capaz de divertir os alunos, transformando o que é complexo em simples. O professor, no entanto, não é um alquimista capaz de simplificar temas complexos. Os alunos devem desconfiar de quem propõe tal velhacaria. Temas complexos e difíceis devem ser tratados na medida da sua dificuldade e complexidade. A motivação e a paixão ao transmitir o conhecimento não devem ser confundidas com capacidade de simplificação. Assuntos complexos, como a teoria das cordas, na Física; o cálculo diferencial, na Matemática; ou uma questão de Direito Constitucional ou Internacional (perdoem-me os físicos e matemáticos!), devem ser tratados com a solenidade e reverência que os temas complexos suscitam para o entendimento humano. O atrativo, nesses casos, não está na simplificação, mas na clareza, objetividade e precisão da exposição, capazes de fazer o aluno esforçar-se para suplantar suas próprias limitações e vencer as barreiras impostas pela complexidade desses saberes. O deleite e o prazer da atividade cognoscente reside na superação das nossas próprias limitações intelectuais e heurísticas. Em educação, não existem atalhos ou caminhos mais fáceis e simples.
Estudar pode ser divertido? Pode e deve. Assim como trabalhar pode e deve ser divertido. E não é à toa que os franceses usam o verbo travailler (trabalhar) para se referir às obrigações estudantis. Mas o trabalho e o estudo são atividades que exigem concentração, disciplina, dedicação. Quem gosta de estudar, ou gosta do trabalho que executa, vê no estudo e no trabalho um deleite, atividades essencialmente prazerosas. Mas nem todos encaram a vida acadêmica dessa forma e, em razão disso, exigem que o professor transforme dedicação, concentração e disciplina em algo mais palatável. Esvai-se o conhecimento pelo ralo da simplificação grosseira, ficam as piadas e a diversão na sala de aula.
Essa atitude é muito cômoda para muitos docentes. Se o conhecimento está disponível em rede e os alunos são responsáveis pelo que aprendem, não mais há razão para que o professor-facilitador domine com profundidade os conteúdos da disciplina que leciona. Isso faz com que algumas escolas e professores do ensino fundamental, por exemplo, preocupem-se em incutir nas crianças o conceito de cidadania, esquecendo-se de ensinar minimamente os conteúdos mais basilares de gramática, história ou matemática.
O professor tem a obrigação de conhecer com grande profundidade os conteúdos da disciplina que leciona. Alunos não precisam de quem lhes facilite o caminho, transformando o que é difícil em algo fácil. O que é difícil continuará a sê-lo, e exigirá mais dedicação do estudante para que possa ser compreendido. Alunos precisam, sim, de docentes que lhes transmitam com clareza, objetividade e paixão os conteúdos, simples ou complexos, aprendidos ao longo de uma vida de dedicação ao estudo. Só assim os estudantes estarão aptos para alçar voos sozinhos. E para quem pensa que somente agora os alunos passaram a ser considerados os sujeitos do conhecimento, lembro a maiêutica socrática: “Dar à luz ao saber não está em meu poder, e a censura que vários já me fizeram de que, ao colocar questões aos outros, não dou jamais nenhuma opinião pessoal sobre qualquer assunto, e que causa disso é a nulidade do meu próprio saber, é censura verídica..”.
Feliz 15/10, dia dos professores!
                Fernando Amorim